quinta-feira, 29 de abril de 2010

FUNÇÃO EXTRAORDINÁRIA DOS APÓSTOLOS - I-II-1

No apostolado há uma função ordinária e uma função extraordinária. Esta extinguiu-se com a morte dos doze, aquela há de perpetuar-se na Igreja até o fim dos tempos. Aqui a filosofia das palavras traz-nos a contribuição de sua luz. Ordinário, numa sociedade é o que pertence à sua constituição estável, à ordem sem a qual não pode subsistir. Extraordinário é o que está fora desta ordem, é o que depende de particulares circunstâncias, estranhas à organização regular da vida social. O ordinário é, por sua natureza, duradouro, definitivo, normal; o extraordinário é passageiro, provisório, acidental.

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Livro I - A Igreja Católica
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Capítulo II - S. PEDRO, PAPA IMORTAL

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§1. - Perpetuidade do primado de S. Pedro.
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SUMÁRIO - Demonstração da tese católica; O Evangelh0; a razão; a história e o primado do Pontífice romano.

S. Pedro não foi por Cristo constituído chefe visível da sua Igreja: primeira negação protestante. S. Pedro não esteve em Roma e menos ainda estabeleceu na cidade eterna a sede do seu principado: segunda negação protestante. S. Pedro ainda que houvesse recebido do Salvador a primazia do poder, não a poderia ter transmitido aos bispos de Roma; privilégios pessoais não se transferem por herança: terceira negação protestante.

Tais os golpes demolidores de camartelo com que o Sr. CARLOS PEREIRA se felicita de haver desmudado os alicerces do papado, "edifício de estrutura gigantesca, repousado, entretanto, sobre a areia movediça da ignorância supersticiosa e da indiferença interesseira dos homens", p. 248.

Originalidade no argumentar? Não; é um retrilhar, com ligeiras variantes, os cansados paralogismos do velho LUTERO nas suas primeiras arremetidas contra o papa.1 Milhares de vezes a crítica pulverizou a inanidade destes sofismas. Mas os protestantes não se dão por entendidos e continuam a repeti-los com o mesmo convencimento
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1. Cfr.Resolutio lutherana super propositione XIII de potestate papae, Weimar, II, 191-7.
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de vitória, com a mesma satisfação de triunfo incontestado. É uma velha panóplia enferrujada de museu arqueológico e eles a envergam inocentemente como armadura açacalada para modernos combates.

Seguindo fielmente os passos do apologista brasileiro da Reforma, somos chegados à sua terceira negação. A primazia de Pedro é uma herança instransmissível que não tem nem pode ter sucessores. E por que? Os "apóstolos eram funcionários extraordinários (que termo prosaico! Que cheiro de repartição pública!) especiais que não tiveram nem podiam ter sucessores", p. 255; eram testemunhas oculares da ressurreição de Cristo, dotados de infalibilidade pessoal, do dom de fazer milagres, etc. Como, pois, podiam ter sucessores? "Para herdarem os Papas o primado, necessário é que herdem o apostolado e sejam sucessores do apóstolo antes de o serem do primaz", p. 246.

Ao ilustre gramático não ocorreu uma distinção óbvia que deslinda todo o equívoco sobre o qual levanta a sua argumentação. No apostolado há uma função ordinária e uma função extraordinária. Esta extinguiu-se com a morte dos doze, aquela há de perpetuar-se na Igreja até o fim dos tempos. Aqui a filosofia das palavras traz-nos a contribuição de sua luz. Ordinário, numa sociedade é o que pertence à sua constituição estável, à ordem sem a qual não pode subsistir. Extraordinário é o que está fora desta ordem, é o que depende de particulares cicunstâncias, estranhas à organização regular da vida social. O ordinário é, por sua natureza, duradouro, definitivo, normal; o extraordinário é passageiro, provisório, acidental.2

Ao ponto agora.

Quando Cristo enviou os seus apóstolos à conquista do mundo, dotou-os sem dúvida de qualidades extraordinárias exigidas pelas condições excepcionais da sua missão. Primeiros promulgadores da lei evangélica numa sociedade pagã, quis o Salvador vigorar-lhes a potência da palavra com a força das obras prodigiosas. Destinados a transmitir aos séculos vindouros o patrimônio íntegro das verdades reveladas, convinha assegurar-lhe a autoridade com o dom da infalibilidade pessoal. Mas ao lado destas
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2. Assim, numa sociedade o exercício do governo dentro das normas constitucionais é regular e estável. Circunstâncias excepcionais, porém, podem levar a nação a investir o soberano de poderes extraordinários. Ao chefe constitutional sucede então o ditador. Passado o perigo, cessam, ipso facto, as suas atribuições anormais. Aos sucessores se transmitirá a função ordinária de governar, não os privilégios extraconstitucionais de que, num momento de singular gravidade, o investira excepcionalmente a vontade da nação.__

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funções extraordinárias, requeridas pela fundação e estabelecimento da Igreja, deviam também os apóstolos desempenhar uma função ordinária nesta sociedade indefectível. Não só nos primeiros tempos de sua existência, mas pelos séculos afora, precisariam os fiéis de mestres que os doutrinassem e de superiores que os governassem. Sem estas funções não há nem pode haver sociedade religiosa. No apóstolo, o taumaturgo, o hagiógrafo passarão, o mestre e o pastor há de perpetuar numa sucessão ininterrupta. É a análise imediata dos textos que distingue naturalmente esta dupla função.

Abramos o Evangelho e ouçamos as palavras divinas desta investidura perpétua: "Ide, pregai a todos os povos... ensinando-os a observar tudo o que vos mandei; e eu estarei convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" (Math., XXVIII, 19-20). Que explendor de evidência! Os enviados de Cristo deverão ensinar e pregar a todos os povos; Cristo os acompanhará com a sua assistência até a consumação dos séculos. Logo os apóstolos, não como pessoas físicas, mas como corpo moral que se perpetua nos seus sucessores, hão de durar até o fim dos tempos.

Escusado era, pois, ao Sr. CARLOS PEREIRA tanto dispêndio de tinta e papel para provar-nos que os papas não são testemunhas oculares da ressurreição de Cristo nem possuem o dom dos milagres e que, nisso, não podem ser sucessores de S. Pedro. Não se arrombam portas abertas. O que cumpria mostrar é que os bispos de Roma não são legítimos sucessores do príncipe dos apóstolos no múnus ordinário de ensinar e governar a Igreja.

Negará, porventura o adversário que o primado de jurisdição seja um múnus ordinário na sociedade cristã? Dirá, talvez que é privilégio pessoal conferido excepcionalmente a Pedro? É consultar o Evangelho, é ouvir a razão, é compulsar a história.

O Evangelho diz-nos que Pedro é o fundamento sobre o qual Jesus constuiu a sua Igreja, sociedade visível, que há de durar até o fim dos tempos e contra a qual não hão de revalecer as portas do inferno. A fórmula evangélica é aqui de um relevo empolgante. De um lado afirma a perenidade da Igreja, do outros constitui a Pedro sua pedra fundamental. Ora, a perpetuidade de um edifício é essencialmente condicionada pela estabilidade de seus alicerces. Repudiando esta pedra fundamental que é a sua autoridade de governo, a Igreja apartar-se-ia das intenções de Cristo, destruiria a própria organização constitucional que lhe impôs a vontade de
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seu divino fundador.3 No dia em que viesse a faltar o principado hierárquico de Simão, a pedra escolhida pelo Salvador, as portass do inferno teriam prevalecido: sem base, o edifício aluiria em inevitável ruína.

Esse dia não despontará nunca. Há vinte séculos que todos os poderes da terra coligados arremetem contra essa rocha firmada pela mão de Deus. Há vinte séculos que a dinastia dos sucessores de Pedro continua na história como um milagre vivo, sem exemplo na ordem moral. Digitus Dei est hic.

Esteja certo, Sr. CARLOS PEREIRA, o relógio do tempo não soará nunca a hora em que "o ídolo do Vaticano será precipitado no seio da história com o ímpeto de uma pedra, arremessada no fundo do mar", p. 250. A audácia da metáfora não logra disfarçar o quixotesco da profecia.

Diz-nos ainda o Evangelho que Pedro é sem restrições de tempo nem de lugar o pastor do rebanho de Cristo. O rebanho existe? Não há de faltar quem o pastoreie. Nunca será que as ovelhas do redil de Cristo tresmalhem, desgarradas pelo mundo, sem pastor que as apascente, guie e defenda.

Assim fala o Evangelho a quem quer que, sem as lentes esfumaçadas de LUTERO, o lê com olhos puros e desapaixonados.

E a razão? Confirma admiravelmente a palavra sagrada. Em todas as obras de Deus resplandece uma unidade maravilhosa, sigilo inconfundível da Sabedoria criadora.

Já na ordem física, tudo é harmonia, consonância, regularidade. Tomai uma planta em que aparece a vida na mais rudimentar de suas formas. De um pequenino germe se desenvolvem, a pouco e pouco, raiz, tronco, ramos, folhas, flores e frutos. A esmo, à ventura? Não, na célula primitiva, lá estava, oculto e invisível, mas real e ativo o princípio de unidade que havia de dirigir a grandiosa e complicada evolução. A terra, o ar, a água subministram o variado material, mas na planta está o arquiteto, que com ele levanta, segundo um plano definido, o edifício vivo. Multiplicam-se as células, mas a sua atividade é subordinada à do órgão; diferenciam-se
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3. "Ce n'est pas sans cause que la tradition catholique a fondé sur ce texte le dogme de la primauté romaine. La conscience de cette primauté inspire tout le developpement de Matthieu, qui n'a pas eu seulement eu yue la personne histoirque de Simon, mais aussi la succession tratitionelle de Simon Pierre". A LOISY, Les Evangiles Synoptiques, 1908, t.II,p. 13.___

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os órgãos, mas a sua função é subordinada à do aparelho; reunem-se os aparelhos, mas ao acrescimento, conservação e defesa do organismo inteiro subordina-se todo o seu funcionamento. O desenvolvimento do indivíduo, a perpetuação da espécie, eis o grande objetivo unificador que estabelece a harmonia na variedade dos elementos subordinados.

Vede o homem. No corpo, são os centros nervosos que dirigem, unificam e harmonizam toda a vida orgânica. Do cérebro partem os infinitos filetes nervosos que levam movimento e vida e trazem impressões e conhecimentos. Na alma, que variedade de potências! Estas, materiais e orgânicas; aquelas, independentes do organismo e espirituais. A todas preside a vontade que empunha o centro do governo. A vontade recebe a luz da inteligência, a inteligência amolda-se à verdade objetiva que, em última análise, se vai identificar com Deus. Sempre a mesma lei: a ordem na unidade, a unidade na subodinação.

Passai do indivíduo à coletividade, ascendei do mundo físico ao mundo moral. É possível conceber um agrupamento humano por mais simples e elementar, sem princípio unificador, sem autoridade? A família é a primeira das sociedades naturais, a célula primigênia do grande organismo moral que se chama pátria. Contam-se os seus limitados membros, mas não lhes falta a autoridade paterna a vinculá-los na harmonia da ordem, na subordinação do amor. Crescem os indivíduos que põem a sua atividade a serviço dum fim comum? Pesa mais forte a necessidade de um poder superior. Podeis imaginar exército sem general, esquadra sem almirante? Na sociedade civil a autoridade é a condição da ordem, da legalidade, da justiça, da própria existência. Não lhe discuto o nome. Chame-se rei ou imperador, doge ou sultão, cônsul ou presidente; concretize-se numa individualidade física ou numa pessoa moral, pouco importa: a exigência é sempre a mesma, a necessidade é sempre inevitável. Sem governo tende a desordem, a revolução, a anarquia, a morte.

Ora, Jesus Cristo fundou a sua Igreja como uma grande sociedade. Poderíamos por um só instante persuadir-nos que não tivesse dado um chefe em torno do qual se reunissem os crentes: Fora lícito aventurar que a Providência se mostrara menos solícita com a sociedade cristã do que o foi com a sinagoga, para cuja conservação instituíra e mantivera a autoridade espiritual do supremo

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sacerdócio? Uma pequenina sociedade não pode subsistir sem governo legítimo e regular e esta grande família destinada a acolher em seu seio os homens pelos séculos afora, a vinculá-los na unidade da fé, da esperança e do amor, teria sido abandonada às vicissitudes das paixões que dividem, sem um centro de unidade, sem um princípio de coesão, sem um chefe supremo que a instruísse, guiasse e regesse, sem uma autoridade que lhe compusesse os dissídios, resolvesse as dúvidas e conservasse a existência orgânica? Não fora esta uma desarmonia no plano divino? Onde há uma sociedade de homens a razão exige um governo.

E o governo é permanente como a necessidade social que exige. Admitir em Pedro um poder de jurisdição como privilégio pessoal e intransmissível é contra-senso jurídico. A autoridade é função pública cuja única razão de ser é o bem social. Pedro preferido por sua fé aos demais apóstolos para primeiro chefe da Igreja, entende-se; o cargo de supremo pastor da sociedade cristã criado para prêmio individual de um homem fora sem razão inadmissível. É, pois, a natureza orgânica da instituição divina que exige a perpetuidade do primado. Cristo, estabelecendo uma sociedade visível qui-la una como uma só coisa são as divinas pessoas, ut sint sicut et nos unum sumus. Ora, pondera S. TOMÁS, “não há unidade da Igreja sem unidade de fé... não há unidade de fé sem um chefe supremo”.4

Deve ser bem evidente a necessidade perene da monarquia espiritual do Pontífice para que a confessem os mais ilustres protestantes que não fecham obstinadamente os olhos à luz da verdade. LEIBNIZ e GRÓCIO são talvez os mais profundos talentos de que na filosofia e na jurisprudência se podem gloriar as letras protestantes; ambos concordam em reconhecer essa necessidade fundamental. Memoremos apenas as palavras do célebre jurista holandês: “A ordem, assim nas partes como no todo, cifra-se no primado ou unidade do chefe. Foi o que em Pedro nos ensinou Cristo. Foi o que de Cristo aprendeu Cipriano, o que com Cipriano repete Jerônimo...
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4. Contra Gentes, 1. IV, c. 76 DE MAISTRE desenvolve admiravelmente este pensamento: "S'il s'élevait des difficultés dans l'Eglise, si quelque dogme était attaqué, où serait le tribunal qui deciderait la question, n'y ayant plus de chef commum pour ces Eglises ni de concile oecuménique possible, puisqu'il ne peut être convoqué, que jé sache ni par le sultan ni par aucun évêque particulier?". Du Pape, 1.IV, c. 6. Ed. 1819, p. 597. O teste espetáculo da divisão e dissolução dogmática que, passados apenas quatro séculos, oferecem hoje as seitas protestantes, são a mais dolorosa confirmação experimental da necessidade inelutável de uma autoridade suprema e infalível da Igreja. Sobre a anarquia protestante, cfr. o que diremos no 1. II, c. 3.___

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este chefe é entre os sacerdotes o bispo... entre os bispos o metropolita... entre todos, o bispo romano... Esta ordem deve ser permanente na Igreja porque contínua é a sua razão de ser: o perigo do cisma”.5

Nada mais claro. Concluamos. A razão exige um primado perpétuo? Cristo instituiu-o. Tudo na obra divina é coerente. O edifício da Igreja foi levantado sobre a firmeza de uma autoridade que, como rocha inabalável, lhe há de sustentar a divina estrutura até a consumação dos tempos. "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela".

A palavra onipotente do Verbo humanado prometeu naquele instante ao humilde pescador da Galiléia uma investidura imortal. Pedro viverá nos seus sucessores até o fim dos tempos. "Episcopalis dignitas Petri indeficiens obtinet cum aeterno sacerdotio consortium".6 Estas palavras de S. LEÃO MAGNO recolhem na sua concisão a voz de todas as gerações cristãs, que, neste sentido, entenderam sempre a instituição do divino Fundador. Não é dos lábios profanados e indignos dum sacerdote fedífrago, perjuro e rebelde que iremos ouvir após mil e quinhentos anos a interpretação genuína da magna carta que constitui o princípio de estabilidade, desenvolvimento e perfeição da sociedade cristã.

A Igreja fundou-se, organizou-se, desenvolveu, segundo o ideal preestabelecido pela Providência. Não podia falhar o plano de Cristo à espera de LUTERO que o viesse emendar. A constituição social do cristianismo e a sua vida no curso dos séculos são necessariamente a realização do plano divino. Ora, desde os seus primórdios a Igreja reconheceu sempre o pontífice romano como o legítimo sucessor de S. Pedro no governo supremo e universal da sociedade dos fiéis. É este concerto admirável da consciência cristã que passamos a ouvir. Depois dos oráculos do Evangelho, depois dos ensinamentos da razão, escute-se a lição da história.
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5. HUGO GROTIUS, Votum pro Pace, ad art. 7. Opera Theologica, Basileae 1732, t. IV. P. 658. Cfr. LEIBNIZ, System der Theologie, Mainz, 1825, p. 296. "A supressão da autoridade do Papa, observa ainda outro célebre jurista protestante, lançou no mundo os germes de discórdias infinitas. Sem autoridade suprema para por termo às discussões que de todos os lados se levantam, começaram os protestantes a dividir-se e dilacerar-se as entranhas com as suas próprias mãos (Funere protestantes in sua ipsorum viscera coeperunt)". PUFFENDORF, De Monarchia Pontifices Romani. Podem consultar-se outras citações de autores protestantes colidas por DE MAISTRE, Du Pape, c.9.

6. S. LEÃO MAGNO, Sermo V (ML, LIV =. 155).
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O legítimo sucessor de S. Pedro na voz da história. - Cristo, já o deixamos largamente demonstrado, instituiu uma sociedade religiosa, deu-lhe em Pedro e em seus sucessores uma autoridade suprema e indefectível, guarda da sua doutrina, baluarte inconcusso da sua unidade. Ora, a autoridade, de sua natureza, é o elemento mais visível, mais conspícuo, mais saliente no organismo social. Se ignoro onde reside o poder, como lhe posso prestar submissão? Como posso apelar para as suas decisões nas minhas dúvidas? Como conhecer a legitimidade dos seus decretos? Logo, fechando o silogismo, na verdadeira Igreja de Jesus Cristo deve existir sempre uma autoridade suprema, visível, evidentemente reconhecível às inteligências retas e aos corações sinceros.

Lançai agora um olhar sobre o universo cristão. Onde está o grande centro da unidade católica, a grande força moral que afirma serenamente a supremacia da sua jurisdição baseada na herança legítima da supremacia de Pedro? Todos os olhos se voltam expontaneamente para a cidade eterna: ei-lo; o bispo de Roma é o soberano Pontífice da cristandade.

Fora da comunhão católica encontrareis mil seitas que se dizem cristãs, a definharem na estagnação da morte, sem unidade de fé, sem unidade de regime, sem unidade de culto. Outrora eram ramos florescentes da grande árvore. O orgulho separou-as num momento de desvario; a ignorância e os preconceitos continuaram a obra cismática das paixões em revolta. Foram-se, desditosas igrejas! Mas nenhuma, ainda nos dias de sua maior enfatuação, pretendeu a hegemonia universal na sociedade dos crentes.

As velhas igrejas do Oriente proclamaram-se espontaneamente autocéfalas. Cada patriarca não estende a sua jurisdição além da limitada esfera territorial que lhe assinaram as conveniências políticas, os acordos diplomáticos ou as transações financieras.7 Sofia e Atenas, Moscou e Bizâncio tratam-se como potências políticas autônomas, nem sempre aliadas mas sempre no mesmo pé de igualdade.

O protestantismo, outra fração separada da unidade católica, introduziu na hierarquia eclesiástica, como em tudo o mais, um confusão inextricável. HENRIQUE VIII disse: "Não quero papa porque o supremo poder espiritual sou eu; a tiara, e a coroa devem

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cingir a mesma fronte. Mas haja bispos, indepoendentes entre si e dependentes do cetro, sem nenhuma autoridade fora da Inglaterra. LUTERO amputou mais profundamente: não quero bispos, mas só sacerdotes. CALVINO mais radical ainda: nem bispos nem sacerdotes, só ministros predicantes. Uma multidão de seitas inferiores: fora também os ministros predicantes; cada cristão é o seu doutor e o seu profeta. Toda a reforma, portanto, nas suas infinitas modalidade renuncia à posse do governo supremo das almas. E eis-nos chegados às pontas do dilema: ou a Igreja de Cristo, por ele fundada sobre Pedro pereceu, ou é a Igreja Católica, Apostólica, Romana.

Para justificar ante a consciência cristã a existência do papado não é mister acumular outras provas, cerrar mais argumentos, ou multiplicar novas deduções. A infalibilidade da palavra de Cristo que prometeu a indefectibilidade à sua Igreja edificada sobre Pedro é o título divino da existência do papado, o penhor seguro da sua perene dedução.

Mas vamos à prova histórica. Para o Sr. CARLOS PEREIRA, o Papado não é instituição do cristinismo primitivo, é "o elo último de uma evolução secular, a expressão suprema de uma concentração sucessiva do poder", p. 295. Mais: "instituição essencialmente humana, o Papado é a suprema mistificação do Cristianismo legada aos tempos modernos pela superstição caliginosa dos tempos medievais".8 - Nunca se levantou mais flagrante testemunho contra a história. O Papado nascido na Idade Média! Mas o Sr. CARLOS
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8. É realmente deplorável como fala o Sr. CARLOS PEREIRA da Idade Média. Não lhe sai a expressão da pena sem que lhe não afivele um epíteto escuro: caliginoso, tenebroso, etc. Isto em pleno século XX! Mas que homem medianamente culto, se o não cega de todo a paixão sectária, desconhece hoje os grandes trabalhos históricos com que o século passado reabilitou a Idade Média ignobilmente denegrida pela Renascença e pelo protestantismo que a ignoravam? Só quem de todo não estudou esta quadra gloriosa que levantou as catedrais, pensou a Suma Teológica e cantou a Divina Comédia, pode malsiná-la de obscurantista. Mas as trevas não estão na época de que se escreve, estão na inteligência de quem escreve. E se não há trevas no espírito há malícia na vontade. Nada mais cômodo à polêmica sem escrúpulos do que este grande negrume do meio, origem obscura de tudo o que molesta, berço desprezível de tudo o que se rejeita como supersticioso, imensa vacuidade de onde se sacam as explicações mais inverossímeis para dar razão de tudo... até do Papado. Mas infelizmente, na ciência séria e cônscia de sua missão, estes recursos já passaram da moda. Hoje crêem no obscurantismo medieval o Sr. CARLOS PEREIRA... e os autores de textos para as escolas leigas de França. A história honesta usa outra linguagem: Nos historiens... s'arrêtant aux plus grossières apprences, écoutant les préventions les plus orannées, n'avant pas même la pensée de rectifier, encore moins le désir de vérifier les vieilles allégations, o t? résumé l'histoire de la première moitié du Moyen Age par ces dont mots: ignorance et superstition. Mais c'est à eux et non aux siècles qu'ils ont...(ilegível-nota do digitador)" DAREMBERG, I'histoire des Sciences médicales, Paris 1870, t.I, pp. 254-255.
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PEREIRA abriu alguma vez um compêndio de história eclesiástica? Compulsou os documentos e as fontes dos primeiros séculos do cristianismo? Leu as Atas dos Concílios? Manuseou as obras dos antigos Padres: Não? E por que se põe a escrever e a doutrinar as turbas erigindo cátedra de sabedoria teológica? Sim? E que faz então da consciência cristã e da probidade científica?

Escrevêramos volumes se quiséramos recolher todos os testemunhos e fatos históricos da antiguidade que atestam irregrafavelmente a supremacia espiritual do papa. Não é, porém, necessário nem aqui nos fora possível. Estes volumes já foram escritos pela erudição mais compreensiva e pela crítica mais escrupulosa. Não os devera ignorar quem pretende impugnar o papado. Mas tudo isto é "graecis incognitum qui sua tantum mirantur".

Demais, apertados nos estreitos limites de algumas páginas não nos é permitido senão aduzir os depoimentos de maior autoridade, os fatos de alcance mais significativo. Cingir-nos-emos aos cinco primeiros séculos do cristianismo, isto é, ao intervalo que se estende da idade apostólica ao início desta era fosca e obscura, em cujas tenebrosas oficinas a "superstição caliginosa" forjou "o grande ídolo do Vaticano", "suprema mistificação do cristianismo".

A quem lê despreocupadamente a história da Igreja, um duplo fato, constante e universal, para logo lhe atrai profundamente a atenção: de um lado, nos papas, a consciência firme, tranquila, ininterrupta da sua autoridade; do outro, na Igreja, a consciência segura, confiante, luminosa da plenitude do poder divinamente outorgado ao seu chefe.
Aos fatos.

Estamos na idade apostólica. O espírito turbulento de alguns jovens suscita em Corinto distúrbios e desavenças. A paz dos fiéis é seriamente ameaçada. Quem a restabelece? O bispo de Roma. S. CLEMENTE, terceiro sucessor de S. Pedro, escreve aos coríntios palavras afetuosas e paternas sim, como convém ao pastor comum, mas, ao mesmo tempo, repassadas de força e autoridade como só as pudera escrever um superior.9 Com a carta envia também o papa
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9. "Os que não obedecem ao que ele [Cristo] por nosso órgão diz, saibam que hão de incorrer em falta e envolver-se em não pequeno perigo; nós seremos inocentes deste pecado". Epíst. ad Corinth., c. 59 (F. 12, 135). Abertamente declara S. CLEMENTE: 1.º que Cristo fala pelos seus lábios; 2.º que os renitentes serão réus de grave culpa. Haverá modo de afirmar menos ambiguamente a própria autoridade? S. IRINEU referindo-se a esta epístola chama-a "potentissimas litteras, ad pacem eos [coríntios] congregans et reparans fidem eorum". Adv. Haeses., III, 3, 3, (MG, vii, 850).___

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os seus legados para compor o dissídio. A eficácia da intervenção não se fez esperar. Restabelecida a harmonia, por muitos anos continuaram os coríntios a ler publicamente nas suas igrejas, durante o ofício divino, a epístola do sucessor de Pedro. Este fato, em que Roma intervém autoritativamente numa igreja distante, de origem apostólica, em vida de S. João, a quem fora mais pronto e natural o apelo, é testemunho de tanto peso que os próprios protestantes não lhe podem obscurecer a importância. LIGHTFOOT vê neste intervento "o primeiro passo para a dominação papal".10 CARLOS PEREIRA em pessoa confessa que este documento "respira um certo tom de superioridade", p. 304. Mas logo dele se descarta com esta chocha observação: "de resto, epístolas como estas escreveram-nas Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Dionísio de Corinto e Irineu", p. 304. Epístolas, sim; como esta, não. Por que o esforçado apologeta não tomou sobre si a tarefa de mostrar-nos nestas outras epístolas: "o tom de superioridade que respira a do bispo de Roma"? O próprio gramático não estava convencido desta igualdade de tom, porquanto logo a seguir, acrescenta: "Ela [a epístola de Clemente] apenas indica a direção em que soprava o vento". Creio que prova algo mais. Mas arquivemos a preciosa confissão: desde a primeira idade da Igreja, vivendo ainda o discípulo predileto, quando ainda soava aos ouvidos dos fiéis o eco da pregação apostólica, o vento que soprava dirigia-se para Roma a indicá-la como sede da autoridade religiosa. O homem que faz agora esta confissão é o mesmo que páginas antes escrevera: "No governo... da Igreja cristã primitiva, nada há que, sequer de longe, se aproxime do papismo da Igreja latina", p. 295.11 No segundo século, por vontade de S. VÍCTOR (189-199) papa em todo o orbe cristão se reúnem sínodos a fim de uniformizar a celebração da Páscoa na Igreja e alguns bispos da Ásia se vêem ameaçados de separação da comunhão católica se recusassem aceitar o costume de Roma. Diante deste fato os protestantes NEANDER,
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10. "Undoubtelly... the first step owards papal domination". LIGHTFOOT. S. Clement. of Rome, Londrina, 1890, I. p. 70.

11. Papismo! Como destoa num estudo "histórico-dogmático" ouvir ainda estas denominações pejorativas, filhas de velhos ódios. A Igreja que obedece ao Papa não tem sobrenomes humanos; toda a gente a conhece com o nome de Igreja Católica. As alcunhas de papismo e romanismo, com que a quiseram ridicularizar os protestantes, não vintgaram contra o bom senso da humanidade. Eles serão sempre luteranos, calvinistas, zeuinglianos, etc., etc. A revoltosos bem está o nome de um cabecilha revolucionário. Ela será sempre a Igreja Católica. O apelido de papismo "est encore ce qu'il fut toujours, une pure insulte et une insulte de mauvais ton qui, chez les protestants même, ne sort plus d'une bouche distinguée" DE MAISTRE, Du Pape, 1. VI, c. 5. Ed. 1819, p. 586.
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LANGEN e HARNCK reconhecem que realmente VICTOR já se atribuia uma jurisdição sobre toda a Igreja. CARLOS PEREIRA, irrita-se contra o santo Pontífice que deu a vida pela fé. Aos seus olhos obnubilidados pelo preconceito, VICTOR não passa de um "atribiliário bispo de Roma", p. 309, com o qual "bem cedo se revela o vírus romano que tem de explodir em Leão, Hildebrando, Bonifácio e Inocêncio, e consumar-se em Pio IX", p. 305. - Como poderá conhecer a verdade quem tão apaixonadamente lê e desfigura a história? Longe dos documentos, CARLOS PEREIRA rejeita o papado como superfetação da caliginosa Idade Média: "Por quase quatro séculos não deparam sequer vestígios, nenhuma tradição, nem um simples monumento da antiguidade", p. 301, que perpetue a memória do papado. Apresentam-se-lhe os documentos, autênticos, antiquíssimos, firmados por nomes de homens que deram o sangue pela integridade de sua fé e que a Igreja inteira venera com amor? O protestante exalta-se, atira para longe os documentos porque infeccionados com o "vírus romano", cobre de baldões a memória dos seus autores tomados de acessos de abrabílis. Haverá modo de persuadir semelhante adversário?

Prossigamos. No primeiro quartel do terceiro século, S. CALISTO (219-224) afirma-se como bispo dos bispos, promulga um decreto para regularizar na África a prática da confissão, legisla sobre a deposição dos bispos, condena a heresia dos Patripassianos.

S. ESTÊVÃO (154-257) dirige com a sua autoridade a célebre controvérsia agitada na Ásia e na África sobre a repetição do batismo conferido pelos hereges.

No século IV, JÚLIO I (337-352) recebe a apelação do S. Atanásio, patriarca de Alexandria, de Marcelo de Ancira, de Paulo, patriarca de Constantinopla, e a alguns bispos que precipitadamente se haviam imiscuído nessas igrejas escreve: "Ignorais ser costume que primeiro se nos escreva e daqui se decrete o que for justo? Certo, se alguma suspeita podia pairar sobre estes bispos, a esta Igreja [Roma] se devera ter comunida".12 Dos bispos, assim ilegitimamente depostos, vários foram, em seguida, por ordem pontifícia, reintegrados nas suas sedes. Que melhor argumento da primazia de Roma que este antigo costume de lhe obedecerem os bispos e patriarcas assim do Ocidente como do Oriente?
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12. S ATHANASIUS, Apolog. c. Arian., n. 35 (MG, xxv, 307).__

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S. SIRÍCIO (334-398) declara pesar-lhe sobre os ombros, como sucessor de Pedro, a solicitude de toda a Igreja; para toda a Igreja legisla e dirime controvérsias: "A regra acima [sobre a administração do batismo], escreve ele, deve ser observada por todos os bispos que se não quiserem separar da solidez da pedra sobre a qual Cristo edificou sua Igreja".13
À medida que a literatura eclesiástica se vai opulentando de mais copioso cabedal de documentos, os testemunhos da primazia pontifícia se vão multiplicando prodigiosamente. Das primitivas eras do cristianismo, falhas e escassas são as memórias que nos restam. Sumiu-se em grande parte a voragem dos tempos.14 E de si já não podiam ser muito numerosas numa quadra tão difícil e arriscada em que a profissão de fé constituia um perigo capital e a vida religiosa dos fiéis, sem lograr a luz da publicidade, se desenvolvia, silenciosa e retraída, à sombra amiga das catacumbas. Com a paz religiosa, porém, inaugura-se a idade de ouro da literatura cristã e o historiador vê satisfeito lourejar ante seus olhos uma seara magnifífica de preciosas informações.

Entremos no século V, INOCÊNIO I (402-417). ZÓZIMO (417-428), BONIFÁCIO I (412-422), CELESTINO I (422-432), LEÃO MAGNO (440-461), SIMPLÍCIO (468-483), FÉLIX II (483-4923) E GELÁSIO I (492-496), isto é, quase todos os papas do século deixaram-nmos tnatos, tão conepícuos, tão incotnratáveis documentos de sua autoridade jurisdicional que a dificuldade está só em os escolher. Ao Concílio de Cartago escreve INOCÊNCIO I que o julgamento dos bispos não é definitivo "se o não confirma a autoridade da sede apostólica". Assim o ensinam "a antiga tradição e a disciplina esclesiástica" estribadas não em disposições humanas, mas na "sentença divina".15 ZÓZIMO, numa epístola aos bispos africanos, recorda outrossim "a tradição dos Padres", consoante a qual a ninguém é lícito discutir as sentença da Sé apostólica; a Pedro e a seus sucessores " por promessa de Cristo e por lei divina" foi confiada a solicitude da Igreja universal.16 Escreve BONIFÁCIO I a todos os bispos da Tessália: é certo por palavra divina que a Igreja romana é a cabeça de todas as igrejas disseminadas no mundo: "quem dela se aparta
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13. P. COUSTANT, Epistulae Romanorum Pontificum, Paris, 1721, p. 627.

14. É sobretudo lamentável a perda dos arquivos da Igreja Romana, destruídos por Diocleciano.

15. COUSTANT, Op. Cent., p. 888 ss.

16. COUSTANT, Op. Cent., p. 974 ss.
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desmembra-se da religião cristã porque já lhe não pertense à constituição orgânica".17 A S. CIRILO de Alexandria ordena S. CELESTINO que, em seu nome e por autoridade da Sé apostólica,excomungue e deponha a NESTÓRIO, patriarca de Constantinopla, caso não retrate os seus erros; confere-lhe ao mesmo tempo a faculdade de nomear outro bispo e lhe comunica haver já escrito no mesmo sentido a outros membros do episcopado a fim de que "a todos conste a sua sentença que é a sentença divina de Cristo".18

Não queremos fatigar o leitor multiplicando alegações, qual mais explícita, mais insofismável, mais decisiva. Não há escurecer a evidência. Os papas sempre tiveram a consciência luminosa, segura, tranquila da sua suprema jurisdição sobre a Igreja. Em todos os monumentos históricos, nenhum vestígio de dúvida que hesita, nenhuma sombra de inovação humana que se pretende introduzir. É um apelar constante para a antiga tradição dos Padres, um reportar-se contínuo à promessa de Cristo, à instituição divina e perpétua do primado na pessoa de Pedro e dos seus legítimos sucessores na cátedra de Roma.

E a Igreja? Levanta-se, porventura contra essa autoridade como usurpação humana que vem desfigurar e desnaturar a obra divina de Cristo? Insurge-se, talvez contra esta força moral, superior à de todos os bispos, de todos os patriarcas, de todas as igrejas particulares? Muito longe disso. Não há um brado de protesto. Na consciência da Igreja, assistida sempre pela divina Providência, vive o espírito de fé, de submissão, de confiança no governo divinamente constituído do papa.

Quereis ouvir a voz dos Padres e dos grandes doutores?

É INÁCIO (m. 107 ou 117), bispo de Antioquia, contemporâneo dos Apóstolos, que, saudando aos Romanos, parece não encontrar no entusiasmo do seu fervor termos bastante expressivos para exaltar a grandeza singular desta Igreja que de Roma preside à comunhão universal dos fiéis e a cuja solicitude confia os cuidados da igreja de Esmirna, que, com o seu martírio, ficaria em breve viúva do seu pastor. 19 E qual é a missão desta Igreja "que preside a toda
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17. COUSTANT, Op. Cent., p. 1037

18. COUSTANT, Op. Cent., p. 1106

19. "Ignatius... ecclesiae dilectae et illuminatae voluntate eius qui vult omnis quae sunt secundum caritatem Jesus Christi Dei Nostri; quae etiam paesidet in loco regionis romanorum, digna Deo, digna decore, digna quae sancta predicetur, digna laude, digna, quae voti compos fiat, digne casta et universo caritatis, coetui praesidens, Christi legem habens, Patris nomine insignita, etc.". Ad Rom. (F. I(2), 213), "Solus Jesus Christus illam [ecclesim Syriae] vice episcopi reget atque vestra caritas". Ad Rom., IX, I (F, I(2), 223). Fora mister ler toda esta epístola, respirar este sentimento de reverência que de toda ela se exala para formar uma idéia do alto conceito em que na idade apostólica era tida a primazia da igreja romana.
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a cristandade"? Continua o santo mártir: "Vós ensinastes às outras igrejas. E eu quero que permaneçam firmes as coisas que vós prescrevestes nos vossos ensinamentos".20

É IRINEU (m. 202), oriundo da Ásia Menor, bispo nas Gálias, discípulo de S. Policarpo e de outros anciãos da idade apostólica, Irineu em cujo testemunho falam o Oriente e o Ocidente e que proclama sem rebuços nem equívocos a necessidade para todas as igrejas de se conformarem na fé com a Igreja romana em razão de sua primazia de poder.21

É CIPRIANO (200-258), que, comunicando ao papa Cornélio a partida para Roma de Felicíssimo e outros cismáticos, diz: "Atrevem-se estes a dirigir-se à cátedra de Pedro, a esta igreja principal de onde se origina o sacedócio... esquecidos de que os romanos não podem errar na fé".22 Para O bispo de Cartago, Roma é "a matriz e o tronco da Igreja católica",23 "estar em comunhão com o papa é estar em comunhão com a Igreja católica".24É AGOSTINHO (354-430), que em mil lugares, atesta inequivocamente a supremacia do Pontífice romano. Roma é a igreja "in qua
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20. Ad Rom., III, I, (F I(2), 215).

21. "Ad hanc enim Ecclesiam propter potentiorem principalitem necesse est omnem convenire ecclesiam". Adv. Haer., III, 3 (MG, VII; 849). Eis na íntegra vertido o texto de IRINEU: "Com esta igreja, em razão de sua primazia de poder todas as outras igrejas, isto é, os fiéis de todo o universo têm obrigação de se conformar: de fato, é nela que todas, em toda parte e sempre, conservaram a tradição que vem dos apóstolos".. "Il est difficile de trouver une expression plus nette: 1º de l'unité doctrinale dans l'Eglise universelle; 2º de l'importance souveraine, unique de l'Eglise romaine comme témoin, gardienne, et organe de la tradition apostolique; 3º de sá prééminence supérieure dans l'ensemble des chrétientés". DUCHESNE, Eglises séparées, Paris 1905, p. 119.

22. Epist. 59, n. 14 (Ed Hartel, 683).

23. Epist. 49, n. 3 (Hartel, 607).

24. Epist. 55, n. 1 (Hartel, 624). Tal é o sentir de Cipriano, calmo e tranquilo, ecoando a grande voz da tradição católica. Que montam algumas expressões ressentidas pronunciadas depois pelo grande bispo contra o papa S. Estêvão no ardor de sua controvérsia religiosa que agitou e perturbou os ânimos na África e na Ásia? Magnificamente DE MAISTRE: "
Lorsque les adversaires de la monarchie pontificale nous citent usque ad nauseam les vivacités de ce même S. Cyprien contre le papa Etienne, il nous peigent la pauvre humanité au lieu de nous peidre la sainte tradition... Il faut de plus ne jamais perdre de vue cette grande règle qu'on néglige trop, en traitant ce sujet,quoiqu'elle soit de tous les temps et de tous les lieux, que le témoignage d'un homme ne saurait être reçu, quelque soit le mérite de celui, qui le rend, dès que cet homme peut êntre seulement, soupçonné d'être sous l'influence de qualquer passion capable de le tromper". Du Pape, l.I, c.8 Ed. 1819, pp. 70-68. ___________
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sempre apostolicae viguit principatus".25 A sede de Pedro, pelo sucessão ininterrupta de seus bispos, "culmen auctoritatis obliunt, cui nolle primas dare vel summae profecto imietatis est vel praecipitis arrogtantiae". 26

É JERÔNIMO (340-420) que das longínquas paragens do Oriente, ao ver que Melécio, Vital e Paulino pleiteavam a sede de Antioquia, se dirige ao Papa em demanda de luz e conselho: "estar em comunhão com o romano Pontífice é estar unido à cátedra de Pedro, é sequir a Cristo, que sobre essa pedra edificou a sua Igreja. Quem sair desta arca perecerá no naufrágio". 27
É, ainda OPTATO DE MILÉVIO, AMBÓSIO, GREGÓRIO DE NAZIANZO, MARCELO DE ANCIRA, VICENTE DE LERINS, PEDRO CRISÓLOGO, TEODORO, LEÔNCIO DE ARLES,28 é o coro universal da Igreja, do Oriente e do Ocidente, a cantar harmoniosamente as glórias de prerrogativas de Pedro sempre vivo nos seus sucessores.

Tal a voz dos Padres. Ouvi agora a dos Concílios. É a Igreja toda que fala nas suas assembléias ecomênicas.

Abre-se em 431 o concílio de Êfeso. FILIPE, legado do Sumo pontífice assim se apresenta ao venerável consenso: "Ninguém duvida, a todos os séculos o confessam, que S. Pedro, príncipe e chefe dos apóstolos coluna da fé e fundamento da Igreja católica, recebeu de N. S. J. C., Salvador e Redentor do gênero humano, as chaves do reino e o poder de ligar e desligar os pecados. Pedro vive e julga até aos nossos dias e sempre viverá e julgará na pessoa de seus sucessores. S. CELESTINO, seu sucessor e substituto legítimo, nosso santo e bem-aventurado Papa, a este sínodo me envia como seu representante, etc."29 E todos os padres do concílio expressamente aprovaram as palavras do enviado pontifício.

Vinte anos depois, no concílio ecumênico reune-se em Calcedônia. Logo na priemira sessão levanta-se o representante do Soberano Pontífice e, sem que se ouvisse uma só voz de protesto,
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25. Epíst. 43, c. 3, n. 7 (ML, XXXIII, 163).

26. De util.credendi, c. 17. n. 35 (ML, XLII, 91).

27. "A pastore praesidium ovis flagito... Ego nullum primum, nisi Christum sequens, Beatitudinae tuae, id est, cathedrae Petri communione consorcior. Super illam petram aedificatam Ecclesiam scio. Quiqumque extra hanc domum agnum comederit, profanus est. Si quis in arca Noe non fuerit peribit regnhante diluvio... Quicumque tecum nom colligit, spagit!. Epist., 15, n. 2 (ML, XXII, 355).

28. Muito alongaríamos estas páginas se quiséramos referir, um por um, todos os lugares destes e de outros doutores dos cinco primeiros séculos da Igreja, que preconizam e exaltam a primazia do Papa. O leitor poderá consultá-los nas obras que citaremos em bibliografia, no fim do livro I.

29. MANSI, IV, 1295-B.
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pronuncia as seguintes palavras: "Devo comunicar-vos uma ordem do Papa da cidade de Roma que é o chefe de todas as igrejas, com a qual proíbe que Dióscoro toma parte no Concílio". 30
Consultai igualmente os atos do 3.º concílio de Constantinopla, do 2.º concílio de Nicéia, do 4.º concílio de Constantinopla31 e ver-se-á sempre a mesma crença da Igreja universal autenticamente professada nas suas mais imponentes assembléias.
Calo de indústria os concílios posteriores e cito de preferência os orientais a fim de que o leitor possa julgar com quanta verdade afirma o Sr. PEREIRA que "as pretenções do bispo de Roma de ser o chefe universal da Igreja em tempo nenhum foram reconhecidas pela catolicidade cristã. As igrejas do Oriente protestaram contra esta sacrílega usurpação e as do norte da Europa repetiram este protesto no século XVI", P. 309. Esqueceu ao prudente polemista advertir os seus leitores que a grande tentavia de cisma geral no Oriente, devida à ambição de FÓCIO, data do séc. IX. Morto FÓCIO a fração cismática voltou à unidade católica, da qual foi novamente separada no séc. XI por MIGUEL CERULÁRIO. Dois séculos depois ainda uma vez as Igrejas do Oriente e do Ocidente subscreveram no concílio geral de Lião (1245) o dogma do primado do papa. Só o orgulho dos imperadores e a cobiça insaciável dos patriarcas de Constantinopla levaram de novo o Oriente à via funesta do cisma. Sinceramente, depois de nove séculos de cristianismo "o protesto contra a usurpação sacrílega" vem muito tarde. O Sr. CARLOS PEREIRA, que não perde ocasião de mostrar sua ogeriza com tudo o que é medieval, por que agora acolhe sem reservas uma separação operada "nas tevas caliginosas" desta idade de superstições? Por que não nos mostra o protesto do Oriente cristão na sua idade de ouro, quando nele florsciam os CRISÓSTOMOS, os NAZIANZENOS, OS ATANÁSIOS, quando nos seus concílios se recebiam os legado do Papa com a aclamação unânime: Pedro falou pelos lábios de Leão? Nascidos de uma paixão mal sofreada os protestos de FÓCIO e de LUTERO não passam de gritos vulgares de revolucionários criminosos. Não é a consciência, é o interesse, é a soberba, é o amor próprio mal ferido que inspiraram os dois grandes cismas que romperam a unidade cristã.32 Sobre os seus autores pesa na história o cargo das mais terríveis responsabilidades.
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30. MANSI, VI, 579-D

31. MANSI, XI, 659-C; XII, 1081-D; XVI, 325-B.

32. É verdade tão sabido que qualquer insistência pode parecer supérflua. FÓCIO reconheceu a primazia do Papa enquanto este não lhe foi à mão no seu desmesurado desejo de subir. Só então, irritado, entrou a combater a supremacia de Roma sob o religiosíssimo pretexto de que a autoridade eclesiástica devia acompanhar a dignidade de capital do império, transferida do Tibre para o Bósforo. Note, pois, o Sr. CARLOS PEREIRA: Fócio não negou a primado, não quis destruir a tiara, desejou cingi-la. - Em LUTERO é ainda mais evidente a influência do ânimo apaixonadamente orgulhoso. Desde 1516 errara o frade teólogo em expor a doutrina católica da justificação. Impugnado pelos defensores da ortodoxia apelou para Roma. Em 30 de maio de 1518 envia ao Papa suas teses ou resolutiones, que deviam ser acompanhadas com uma carta em que se lêem estas formais palavras: "Agora, que devo fazer? Desdizer-me não posso, e vejo entretanto que excitei grande ódio e inveja com publicar estas minhas teses... [e conclui:] Por isso, santíssimo Padre, prostro-me aos pés de vossa Santidade, a quem entrego a minha pessoa, tudo o que sou e tenho. Vossa Santidade fará o que bem apouver: nas mãos de V. S. está o repelir ou defender a minha causa, dar-me, ou negar-me razão, dar-me a vida ou tirar-ma. Na voz de Vossa Santidade reconheço a voz de Cristo, que em vós fala e governa". DE WETTE, I, 121-122. e, 1519 diz ainda nume epístola ao Papa: "plenissime confiteor hujus Ecclesiae (romanae) potestatem esse super omnia" DE WETTE, I, 234. O Papa, guarda infalível da verdade, não podendo transigir com o erro, condenou-o. O frade soberbo não teve a humildade de submeter o seu juízo à autoridade daquele a quem Cristo confiara a missão de confirmar os seus irmãos na fé. Inde irae!
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Reatemos a fio da nossa demonstração. Mais eloquentes que as palavras são os fatos. A vida toda da Igreja gravita em forno de Roma. Imaginai, por um instante, que o Papa nos seja sucessor de S. Pedro no governo universal das almas e toda a história eclesiástica se torna um mistério inexplicável, um enigma sem solução.

É o Papa quem convoca, preside e confirma todos os concílios gerais desde o de Nicéia até ao do Vaticano.33 Seu poder sobre estas assembléias ecumênicas é univesalmente reconhecido. LEÃO I cassa o cânon 28 do concílio de Calcedônia e o cânon fica sem efeito. "Convocar um sínodo sem autoridade da Sé apostólica, proclamam os legados do Papa no 4.º concílio ecumênico na presença 600 bispos orientais, é coisa que nunca se fez nem é lícito fazer".34
É o Papa quem confirma, remove, demite, reintegra bispos no Oriente e no Ocidente. CIPRIANO escreve a S. ESTÊVÃO para que substitua MARCIANO, bispo de Arles. S. DÂMASO depõe FLAVIANO, patriarca de Alexandria. S. AGAPITO exautora ANTIMO, patriarca de constantinopla, apesar da oposição da imperatriz. NICOLAU I enumera oito patriarcas constantiopolitanos depostos pelos Romanos Pontífices. ATANÁSIO, patriarca de Alexandria, EUSTÁTIO, bispo na Armênia e TEODORETO depostos em sínodos provinciais ou gerais são restituídos às suas sedes por ordem de Roma. E o poder
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33. Acenamos aqui muito de corrida a uma multidão inumerável de fatos. Referi-los por miúdo e documentá-los copiosamente fora escrever um tratado inteiro de história eclesiástica. Não adiantamos, porém, uma só proposição de que não possamos, se nos for contestada, ministrar todas as provas históricas.

34. MANSI, VI, 582-B

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do Papa "em tempo nenhum foi reconhecido pela catolicidade cristã"!

É o Papa quem acredita, nos centros mais importantes da cristandade, legados e embaixadores seus, investido de plenos poderes para decidir as causas mais urgentes. LEÃO I nomeia um apocrisiário em Constantinopla, AGAPITO um representante junto ao imperador JUSTINIANO. Em Tessalônica desde o século IV residia um vigário apostólico cuja jurisdição se estendia a todos os bispos da Ilíria.

Ao Papa, de todo o orbe católico apela, sem distinção, sacerdotes, bispos, patriarcas, ortodoxos e hereges. Roma é o tribunal de última instância. Sua sentença pode reformar todas as outras e por nenhuma e reformável. Em 142 MARCIÃO, excomungado pelo seu bispo no Ponto; em 251, PRIVATO, bispo condenado pelo concílio de Cartago; em 252 FORTUNATO e FÉLIX, julgados por CIPRIANO, apelam para Roma. Para Roma apelou o grande ATANÁZIO, patriarca de Alexandria, apelaram CRISÓSTOMO, GREGÓRIO DE NAZIANZO, e FLAVIANO, EUTIQUES, AÉCIO, todos orientais. Que melhor prova da supremacia do papa? Não escreveu CALVINO que "o supremo poder reside naquele para cujo tribunal se apela"?35 E a autoridade do papa "em tempo nenhum foi reconhecida pela catolicidade cristã"!

É na comunhão com o papa, necessária a todos os fiéis, que a Igreja põe a pedra de toque da verdadeira ortodoxia. Afirmam-no declaradamente S. CIPRIANO, S. OPTATO DE MILÉVIO, S. AMBRÓSIO, S. JERÔNIMO. Afirmam-no, com os fatos, quase todos os hereges que, ainda condenados por bispos ou sínodos particulares procuraram com todas as artes da fraude, da dissimulação e da astúcia conservar a comunhão com a Igreja romana. Basta lembrar os nomes de MARCIÃO, CELESTINO, amigo de PELÁGIO, MONTANO, etc.

Ao papa enfim reconhecem a soberania espiritual os supremos poderes políticos do império. GRACIANO no século IV ordena que não se entreguem as igrejas senão aos bispos em comunhão com papa DÂMASO.36 O edito de TEODÓSIO MAGNO que institui o cristianismo, religião do império, declara ser vontade do imperador que
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35. CALVINO, Institution de la Relegion Chrétienne, Lyon, 1565, I. e, c.7, n. 9, p. 390. Sobre as apelações dos orientais a Roma, Cfr. P. BERNADAKIS, Les appel au Pape dans l'Église grecque jusqu'à Fhotius, no Echos d'Orient, 1903, pp. 30-42; 118-126; 248-257; P. BATIFFOL, Les recours à Rome en Orient avant le concile de Chalcédoine, na Revue d'histoire ecclésiastique, 1925, pp. 5-32.

36. TEODORETO, Hist. Eccles., V. 2 (MG, LXXXII, 1198).

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os seus súditos "sigam a religião pregada por S. Pedro aos romanos e que até hoje se conserva e é seguida pelo papa DÂMASO".37 JUSTINIANO escreve a JOÃO II: "Apressamo-nos em levar ao vosso conhecimento tudo quanto concerne o estado das igrejas... Nem sofremos que coisa alguma seja desconhecida por Vossa Santidade quia caput est omnium sanctarum ecclesiaram".38
São imperadores cristãos? Pois não nos falta em testemunmho de imperador pagão. Chegou AURELIANO em 272 a Antioquia. PAULO DE SAMOSATA, já condenado por dois sínodos, recusava entregar a residência episcopal. A causa é levada ao tribunal supremo. A sentença de AURELIANO, que EUSÉBIO chama "retíssima", foi que se entregasse o edifício a quem determinasse o bispo romano e os outros antístites da Itália.39 Bem notória devia ser no século III a primazia do Papa sobre toda a Igreja para que não a ignorassem os próprios imperadores gentios.

Após esta rápida excursão pelos primeiros séculos do cristianismo podemos legitimamente concluir com DE MAISTRE: "Rian dans toute l'histoire ecclésiastique n'est ausse invinciblement démontré, pour la conscience, surtout, que ne dispute jamais, que la suprématie monarchique du souverain Pontife".40 Muito de caso pensado restringimo-nos quase exclusivamente aos testemunhos dos 5 primeiros séculos.41 Aqui é impossível falar de eclipse medieval, de obscurecimentos, de superstição.
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37. Cod. Theodos., I, 16, tit. I. c. 2.

38. Epist. 132, Epistolae Imperatorum, Pontificam, aliorum, etc., 1885-1888 p. 716.

39. EUSÉB., Hist. Eccles., VII, 30, (MG, XX, 719).

40. DE MAISTRE, Du Pape, I. I, c. VI, Ed. 1819, p. 44.

41. Não quero, porém, omitir aqui o testemunho de LUTERO, que de próprio punho lavrou a sua condenação. "É certo que Deus honrou a Igreja romana sobre todas as outras; nela S. Pedro, S. Paulo, 46 papas e milhões de mártires derramaram o próprio sangue e triunfaram da morte e do inferno... Não nego que o bispo de Roma seja, tenha sido e deva ser o primeiro: a esta persuasão leva-me, antes de tudo, a vontade de Deus que é visível em todo este fato. Se Deus não quisera, o Pontífice romano nunca teria chegado a esta monarquia. Ora, a vontade de Deus, de qualquer modo que nos seja significada, deve ser acolhida com respeito. Não é, pois, permitido resistir temerarialmente ao Pontífice romano na sua primazia. Tão poderosa é esta razão que, ainda, não houvesse, em seu favor, nenhum texto da Escritura e nenhum outro argumento, seria bastante forte para reprimir todos os que lhe resistem... Não vejo, como se possam esquivar à tacha de cismáticos os que, indo contra a vontade divina, se subtraem à autoridade do Romano Pontífice". Resolution lutherana super proposit. XIII de Potestate Papae, 1519. Weimar, II, 186. "A deferência que se deve a esta Igreja é evidente; se nos nossos dias em Roma as cousas se acham em todo estado que fora para desejar um regulamento melhor, contudo nem estas desordens nem outra causa alguma nos devem levar a separarmo-nos dela; muito pelo contrário, quanto mais deplorável é a condição atual das coisas, mais a ela nos devemos conservar apegados". Weimar, II, 72. Infelizmente a soberba mal dominada veio perturbar a serenidade do juízo que ditou estas linhas sensatas. A Igreja de Roma, regada pelo sangue de tantos mártires e tão manifestamente amparada pelo vontade de Deus, será mais tarde a apóstata, a grande prostituta de Babilônia, a sinagoga de Anticristo.
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Diante destes documentos e de mil outros que poderíamos facilmente produzir, perguntamos sinceramente a todo leitor desprevenido: havia ou não na Igreja primitiva a consciência clara, luminosa, serena da soberania esperitual do bispo de Roma?

Sem esta consciência, como explicar a história? E, sem ligar cinicamente a história, como a afirmação de CARLOS PEREIRA: "o papado, instituição essencialmente humana, é a suprema mistificação do cristianismo legada aos tempos modernos pela superstição caliginosa dos tempos medievais"?, p. 249. Ah! Mistificação" Ah! Superstição caliginosa!
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segunda-feira, 26 de abril de 2010

PEDOFILIA - OS PADRES CALUNIADOS COMEÇAM A REAGIR

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Padre recebe 6.400 euros da Google por falsa acusação de pedofilia

Post divulgado por um utilizador anônimo na rede social da companhia (que está monopolizando a internet), o Orkut, desencadeou o processo

Os casos de pedofilia na Igreja, recentemente divulgados, já deixaram marcas na Internet.

Um padre brasileiro foi acusado de pedofilia na rede social da Google, o Orkut, e o tribunal de Minas Gerais decidiu condenar a companhia a uma indemnização de 15 mil reais (quase 6.400 euros).

O padre alega que um utilizador anônimo publicou um post na rede social da Google, dizendo «Padre J. R.: o farsante, o namorado da sacristã, o pedófilo, roubo e sexo na igreja, o ladrão que tem amante», refere o jornal «O Globo». O próximo passo foi mesmo um pedido de indenização à detentora da rede social, por danos morais.

E a sentença foi favorável ao padre:

«Ao disponibilizar espaço em sites de relacionamento virtual, em que seus usuários podem postar qualquer tipo de mensagem, sem prévia fiscalização, com conteúdos ofensivos e injuriosos e, muitas vezes, com procedência desconhecida, assume o risco de gerar danos a outras pessoas.

À Google é incumbida a responsabilidade pela difamação. A sentença é clara quanto à «responsabilidade objectiva dos provedores de serviços de internet que devem responder por possíveis danos gerados pelos conteúdos que disponibilizam na rede».


Mas a gigante da Internet rejeita estas acusações, argumentando que «as ofensas supostamente sofridas pelo padre não foram pronunciadas pela empresa, mas tão somente por um usuário que postou as mensagens tidas como ofensivas».



Como a decisão foi tomada já em 2ª instância, não é passível de recurso.

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

SÃO PEDRO, PRIMEIRO PAPA - SÃO PEDRO EM ROMA -ICR/LCP I-I-3




LIVRO I - CAPÍTULO I - SÃO PEDRO EM ROMA - Pg.66



Livro I - A Igreja Católica
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Capítulo I - S. PEDRO, PRIMEIRO PAPA
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§ 3.- São Pedro em Roma



SUMÁRIO - Tese católica. Prova: Testemunhos do século terceiro; do século segundo; do século primeiro; De S. Pedro. Argumento arqueológico. - S. Pedro, primeiro bispo de Roma. - Objeções do Sr. Carlos Pereira:: Silêncio de S. Lucas; de S. Paulo. - Conclusão.



Libertado de sua prisão em Jerusalém partiu pouco depois o príncipe dos apóstolos para a capital do Império onde fixou a sua sede episcopal.


Sobre e evidência deste fato histórico não pairou em toda a antiguidade cristã a menor sombra de dúvida. Foi MARSÍLIO DE PÁDUA (séc. XIV), empenhado em defender Luís de Baviera contra o papa João XXII (notai como a negação da verdade tem sempre a sua origem nos estos de uma paixão em luta), quem primeiro lhe pôs um ponto de interrogação. Os protestantes converteram para logo a dúvida em negação formal. Não foram eles protestantes se não lançassem mão de quanta arma, boa ou má, lhes estivesse ao alcance para impugnar o odiado "papismo".


CARLOS PEREIRA navega no esteira dos seus antepassados em protestar. O estabelecimento da sede episcopal de S. Pedro em Roma é, na sua argumentação, o terceiro elo da corrente "que deve prender a metafórica barca de S. Pedro aos cais de uma instituição divina", p. 215. Ora, "a alta crítica moderna de abalizados historiadores tem mostrado à saciedade o nulo fundamento de tão generalizada tradição", p. 265.


Receio muito que esta "alta crítica moderna" tão pomposamente assoalhada seja apenas um velho preconceito de partido e que os "abalizados historiadores", tão confiadamente invocados, não passem de sectários tendenciosos que tentaram dobrar a realidade objetiva dos fatos ao aprioismo dos seus caprichos.


LIVRO I - CAPÍTULO I - SÃO PEDRO EM ROMA - Pg.67



Consultemos com serena imparcialidade os documentos, analisemos-lhes o valor probativo e deslindemos as dificuldades protestantes.


No exame dos antigos testemunhos seguiremos o métodos regressivo, remontando do século III aos tempos apostólicos. Desses testemunhos alguns são omitidos, outros criticados pelo Sr. CARLOS PEREIRA, que, porém confessa abertamente não os conhecer de primeira mão. Os subsídios do seu estudo foi ele haurir "nos amplos mananciais da obra prodigiosa" (p. 278) de GREENOOD, Cathedra Petri, História política do grande patriarcado latino. Nem era mister que o declarasse. A quem quer que tenha ligeira notícia dos antigos documentos, as páginas do Sr. CARLOS PEREIRA revelam para logo um autor de todo ponto profano e peregrino no conhecimento direto das fontes históricas primitivas do Cristianismo. Não obstante, com o só auxílio de textos insulados, bebidos em segunda ou terceira derivação, abalança-se o intrépido gramático ao exame do importante debate. Não temos, pois, pela frente um historiador que no estudo direto das fontes antigas se tenha formado uma convicção pessoal. Combatemos apenas um sectário que transcreve citações e observações alheias só por lhe irem ao sabor dos preconceitos individuais.
Aos documentos.


Século III. - Em meados do terceiro século CIPRIANO (M.258), bispo de Cartago e primaz da África, numa epístola a Antoniano diz-nos: "Vagando a sede de Fabiano, isto é, a sede de Pedro e da dignidade da cátedra sacerdotal, foi Cornélio criado bispo. 92


ORÍGENES (m.254), o maior luminar da escola de Alexandria, refere-nos que Pedro ao ser martirizado em Roma, pediu e obteve fosse crucificado de cabeça para baixo.93

CLEMENTE ALEXANDRINO (c. 150-215), mestre e predecessor de Orígenes, atesta-nos que S. Marcos escreveu o seu Evangelho a pedido dos romanos que ouviram a pregação de S. Pedro. 94



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92. "Factus est Cornelius, com Fabiani locux, ind est, locus Petri et gradus catyhedrae sacerdotalis vacaret". Epist. X ad Antonianum (ML, iii. 770, 773).

93. Comment, in Genes, t. 3 (MG, XII, 91). Cfr. EUSÉB., Hist. Eccles., III, ' (MG, XX, 216).

94. "Cum Petrus in urbe Roma verbum Dei publice praedicasset et Spirutu Sancto afflatus Evangelium promulgasset, multi qui aderant Marcum Adhortati sunt... ut quae ab apostolo praedicata erantu conscribaret". A´EUSÉB., Hist. Eccles., VI, 14 (MG, XX, 551).





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Destas palavras confessa o Sr. CARLOS PEREIRA que "se poderá inferir a presença do pessoal de S. Pedro em Roma" p. 219, inferência, porém, que "não é muito segura diante do verbo grego traduzido - proclamar -, visto que o termo original significa proclamar como arauto, e não implica necessariamente a presença do proclamador". p. 291. - Engana-se: proclamar como arauto exige a presença do proclamador. Aliás basta ler o contexto para ver que esta é a única interpretação aceitável.


O autor do Carmen adversus Marcionem, falsamente atribuido a Tertuliano, cantou:


Hac cathedra, Petrus qua sederat ipse, locatum


Maxima Roma Linum primum considere jussit;


e pouco abaixo:


Constabat pietate vigens Ecclesia Romae
Composita a Petro cujus sucessor et ipse
Jamque loco nono cathdram suscepti Hygynus
95.

O autor da obra Philosophumena, que muito provavelmente é S. HIPÓLITO e certamente floresceu no primeiro quartel do terceiro século, não destoa da voz comum. "S. Pedro, diz-nos ele, resistiu em Roma aos artifícios de Simão Magno que, com os seus prestígios, tentara ilaquear a fé dos romanos".96

Por último TERTULIANO (m. c. 222), que, pelos fins do segundo século, viveu longos anos na capital do Império, mais de uma vez faz menção da estada de S. Pedro em Roma. "Nero foi o primeiro a banhar no sangue o berço da fé. Pedro, então, segundo a promessa de Cristo, foi por outrem cingido quando o suspenderam na cruz". - "Oh! Igreja feliz [Roma], à qual deram os apóstolos com o seu sangue o tesouro de sua doutrina, onde Pedro se assemelhou ao mestre no gênero de morte, etc.". Em outra obra diz-nos ainda que Pedro batizou no Tibre como o Batista no Jordão.97 Escrevendo

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95. ML, II, 1077.

96. Philosophumena, VI, 20 (MG, XVI, 3226).

97. "Orientem fidem Roame primus Nero cruentavit. Tunc Pedtrus ab altero cingitur, cum cruci adstringitur." Scorpac., c. 15 (ML, II, 151). "Habes Romam... Ista quam felix Ecclesia, cui totam doctrinam apostoli cum sanguine suo profuderunt; ubi Petrus passioni dominicae adeaquatur" De Praescriptione, c. 36 (MG, II, 49) - "Nec quidquam refert inter eos quos joannes in Jordano et Petrus in Tiberi tinxit" De Baptismo, c. 4 (ML, I, 1023) - Clemente Alexandrino, o autor do Carmen contra Marcionem e Tertuliano, de fato são autoridades que remontam ao segundo século, em que floresceram. Só pela data de sua morte os nomeamos entre os do século seguinte
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contra os hereges, o vigorosa polemista apela para a estada de Pedro na


Cidade eterna, sem o mínimo receio de ser nisto desmentido.


Excetuando o de Clemente Alexandrino, por cima de todos estes testemunhos passa o Sr. Carlos Pereira com prudentíssimo silêncio. Talvez o Sr. Greenwood não os tenha mencionado na "sua obra prodigiosa".


Nas fronteiras do III com o II século depara-nos a história o testemunho de CAIO, presbítero que floresceu no tempo do papa Zeferino e compôs um livro contra o catafrígio Proclo. Desta obra, hoje perdida, conservou-nos Eusébio o seguinte fragmento: "Posso mostrar-te os troféus dos apóstolos. Quer vás ao Vaticano, quer à via Ostiense, encontrarás os troféus (memórias) dos fundadores desta Igreja [Roma]".98


Existiam, pois, em Roma nos fins do séc. II dois monumentos que lembravam aos fiéis o lugar do martírio dos dois apóstolos. A quando remontavam? Diz-nos o Liber Pontificalis que Anacleto (ou Cleto), segundo sucessor de S. Pedro, "memoriam beati Petri construxit et composuit"; De fato, as recentes escavações arqueológicas permitem determinar com suficiente rigor a situação destes antigos monumentos. O sepulcro de S. Pedro achava-se juntamente com outras sepulturas e com um columbário pagão à direita da Via Cornélia que margeava o circo de Nero, no Vaticano.99

Século II. - Entre os autores desta época merece especial atenção S. IRINEU (M. 202). Educado na escola de POLICARPO, que, por sua vez, fora imediatamente formado pelo discípulo predileto, só uma geração o separa da era apostólica. Passou a juventude no Oriente; criado mais tarde bispo de Lião conheceu a tradição das Gálias; durante o seu episcopado empreendeu uma viagem a Roma para estudar as origens e doutrinas da grande Igreja. O Oriente e o OcIdente falam, pois, pela boca autorizada de Irineu. Ora, na sua grande obra Contra as heresias, repetidas vezes fala-nos ele da presença de S. Pedro em Roma. Lembremos um só texto: "Mateus, achando-se entre os hebreus, escreveu o Evangelho na língua
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98. "Ego vero, inquit, apostolorum trophea possum ostendere. Nam sive in Vaticanum si ad Otiensem viam pergere libet, occurrent tibi trophaea eorum qui ecclesiam illam fundaverunt". Ap. EUSÉB., Hist. Eccl., II, c. 25 (MG, XX, 210).

99. Cfr. H. GRISAR, Roma Alla fine del mondo antico (2), Roma, 1908, pp. 225-6.





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deles enquanto Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e aí fundavam a Igreja.100

A este testemunho faz o Sr. CARLOS PEREIRA algumas observações. Diz-nos que "apenas autoriza a vaga inferência da presença de S. Pedro em Roma", p. 289. Vaga, por que? Será possível falar mais claro que dizer que S. Pedro e S. Paulo evangelizaram em Roma? Mas com óculos esfumaçados até os esplendores do meio-dia parecem penumbras de crepúsculo. Continua o crítico: mas o testemunho de Irineu é contrário à ideia do seu [de Pedro] episcopado transferido a seu pseudo-sucessor", p. 289. Sobre este ponto voltaremos logo. Não convém baralhar as questões. Por ora só pretendemos por em seguro o fato histórico da presença de S. Pedro na capital do Império. E para este fim basta o citado testemunho de Irineu revestido de tantas e tais condições de veracidade que ele só bastaria à crítica mais razoavelmente severa.



Pelo ano 170 temos outra prova no fragmento de uma carta escrita por DIONÍSIO ao papa Sotero (166-174). O bispo de Corinto, um dos homens mais célebres do seu tempo, recorda a viagem a Roma de Pedro e Paulo e compara as igrejas de Corinto e de Roma a uma seara plantada pelos dois apóstolos: "[Pedro e Paulo] assim como vieram à cidade de Corinto plantando a nossa Igreja com os seus ensinamentos, assim igualmente se foram a Itália onde vos doutrinaram e sofreram o martírio no mesmo tempo".101

Às apostilas do Sr. Carlos Pereira.


1.º Primeiro confessa que "a presença de Pedro em Roma é única inferência legítima deste documento fragmentário", mas que "nada aproveita à tradição papal visto que associa S. Paulo à fundação da Igreja de Roma prejudicando a idéia de um episcopado exclusivo de Paulo (erro de imprensa: deve ser S. Pedro)" página 281. - Aproveita, Sr., em primeiro lugar porque estabelece a presença de Pedro em Roma contra "a mais alta crítica moderna". Aproveita ainda porque nada obsta que S. Pedro tivesse sido o
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100. "Matheusin hebraeisipsorum lingua Scripturam edidit Evangelii cum Petrus et Paulus Romae evangelizarent et fundarent Ecclsiam". Adv. Haer. L. III, c. 1, n. 1 MG, VII, 844). Cfr. também L. III, c. 3, n. 2 (MG, vii, 848); EUSÉB., Hist. Eccles., 1, V, c. 6 (MG,xx, 446).

101. "Ambo eninm illi in urbem nostram Corintum ingressi sparso evangelicae doctrinae semine nos instituerunt et in Italiam profcti cum vos similiter instituissent eodem tempore martyium pertulerunt". Ap. EUSÉB., Hist. Eccles., 1, V, c. 6 (MG, xx, 446).






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primeiro bispo de Roma ainda que Pedro e Paulo a tivessem fundado.102 A igreja de Jerusalém foi fundada por todos os apóstolos e só Tiago foi o seu primeiro bispo. A razão é simples. A primazia da igreja de Roma não é consequência do fato material de a haver fundado Pedro, mas sim dos títulos ao primado que só Pedro possuía e não Paulo. A Pedro e não a Paulo dissera Cristo: tu és pedra fundamental da minha Igreja; apascenta o meu rebanho. Um general com seus oficiais fundam uma colônia. Quem transmite o supremo poder: Todos os fundadores? Não, só o general que o possui.


2.º "O trecho é confuso e os termos vagos: grande divergência tem provocado a sua tradução do original grego", p. 281. Quanto à confusão, julgue-a o leitor: "Como Pedro e Paulo ensinaram em Corinto assim estiveram em Roma onde padeceram o martírio ao mesmo tempo". Há frase mais clara? - As divergências a que alude o adversário deixam intacto o valor do testemunho na presente questão, versam apenas sobre diferentes lições gregas de outros termos.103

3.º "Pedro é aí considerado como fundador da igreja de Corinto quando sabemos pelos Atos dos apóstolos (XVIII-II) que São Paulo é o seu exclusivo fundador", p. 281.


Fundador, sim, diz o lugar citado; exclusivo, não; enxertou-o por sua conta e risco, o Sr. CARLOS PEREIRA. Aliás DIONÍSIO afirma apenas que S. Pedro ensinou aos coríntios do mesmo modo (ομοιωs) não no mesmo tempo que S. Paulo. Contra este testemunho de tanto peso quem poderá provar que o príncipe dos apóstolos na sua viagem a Roma não tenha pregado e doutrinado em Corinto? E nesse caso quem melhor o poderia afirmar que o próprio bispo coríntio que conservava os arquivos e dípticos de sua Igreja e, na sua juventude, conhecera os contemporâneos dos apóstolos?
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102. Pedro e Paulo são chamados fundadores da igreja de Roma porque ambos trabalharam na sua formação, ambos nela selaram a fé com o martírio. Cronologicamente, porém, Pedro chegou antes a Roma: S. Paulo só mais tarde quando ali já medrava uma florescente cristandade, como ele próprio diz na sua epístola aos romanos.

103. Discutiu-se sobre se se devera ler Φοιτήσαντες ou Φυτεΰσαντες. Com PEARSON e Stenglein se atêm os modernos críticos à segunda versão que diz mais naturalmente com o contexto e é a lição de todos os códigos gregos e da antiquíssima versão siríaca. Mas que tem que ver esta questão de crítica textual com a substância do depoimento? EUSÉBIO que, parece, sabia grego e possuía a obra de DIONÍSIO, cita o seu testemunho sem a menor hesitação em apoio do martírio dos dois apóstolos em Roma. A observação do Sr. Carlos Pereira só se explica pelo intuito de lançar poeira nos olhos dos leitores ingênuos.





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4.º "As vagas expressões do bispo de Corinto não nos dizem se os dois apóstolos foram plantadores das duas igrejas pelo ensino falado ou escrito, pela palavra pregada ou escrita em suas imortais epístolas", p. 282. - Mesquinha escapatória! Se se trata de simples ensino escrito, Pedro e Paulo seriam fundadores de todas as igrejas apostólicas. Por que, então, só associá-los na fundação da igreja de Roma? E por que só Pedro e Paulo? Por que motivo não encontramos em nenhum escritor que João, Mateus e Lucas foram fundadores da igreja de Roma por seus escritos "que incontestavelmente circulavam em todas as igrejas apostólicas?", p. 282. E se não basta, leia o Sr. CARLOS PEREIRA pela 2.ª vez o testemunho de DIONÍSIO: "Os dois apóstolos assim como estiveram em Corinto assim se foram para a Itália onde ensinaram a fé e por ela deram o sangue". Em última análise, lógica ou gramatical, se podem entender semelhantes termos de suas cartas e não de duas pessoas? Por último, diz o bispo de Corinto que os dois apóstolos padeceram juntos o martírio na Itália. Foi, porventura por meio "da palavra escrita em suas imortais epístolas" que Pedro e Paulo morreram mártires ao mesmo tempo?




"Disto concluímos que o testemunho de Dionísio, bispo de Corinto, não oferece base segura para afirmarmos a presença pessoa de Pedro em Roma", p.283. - Disto concluímos que a uma crítica reduzida à senilidade de semelhantes observações não resta senão pedir aposentadoria científica.




Mais chegado ainda aos tempos apostólicos é o testemunho de PAPIAS, bispo de Hierápolis, e discípulo imediato de S. João. Tocamos já a era apostólica. Ora, PAPIAS, como nos refere EUSÉBIO, atesta abertamente que S. Marcos escreveu o seu evangelho em Roma, aprovando-o S. Pedro, e que desta cidade datou o príncipe dos apóstolos a sua primeira epístola.105


Da autoridade de PAPIAS descarta-se o Sr. CARLOS PEREIRA com dizer que "seus escritos se perderam" e que, segundo Eusébio, "ele pareceu ter sido um homem de fraca inteligência", p. 277, - Ponhamos os pontos no ii. Que os escrito de PAPIAS se tenham perdido pouco importa à questão. EUSÉBIO que os possuía na íntegra transcreve-nos a sua afirmação e isto basta. "Homem de pouco engenho", chamou-o uma vez o autor da História Eclesiástica por haver interpretado em sentido material alguns símbolos e metáforas dos Profetas e do Apocalipse. Mas não é mister grande cabedal de
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104. EUSÉB., Hist. Ecclesiást. II, 15 (MG, XX, 171)





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talento para saber e afirmar um fato histórico tão simples como a estada de um apóstolo em Roma. Que em matéria histórica PAPIAS fosse autoridade digna de fé, mostra-o o próprio EUSÉBIO que o cita frequentes vezes em apoio de suas asserções. A pouca perspicácia do exegeta não desvirtua a veracidade do historiador.


Façamos um alto aqui e lancemos um olhar retrospectivo. Se não tivéramos outras provas da presença de S. Pedro em Roma, só por si, o depoimento concorde dos autores citados bastaria para estabelecê-la com toda a certeza. Por uma série ininterrupta de testemunhos ascendemos dos meados do séculos III aos primeiros anos do século II. Não encontramos uma só voz discorde. Em Cartago e em Corinto, em Alexandria e em Roma, nas Gálias como na África, no Oriente como no Ocidente, a viagem do príncipe dos apóstolos à cidade dos Césares é afirmada unanimemente sem hesitação alguma, como fato sobre o qual não pairou nunca a mínima suspeição de dúvida. TERTULIANO e IRINEU, CIPRIANO e EUSÉBIO, ORÍGENES e CLEMENTE ALEXANDRINO são pela crítica moderna reconhecidos como autoridades dignas de toda a fé. Próximos ao acontecimento narrado, dispondo de inumeráveis documentos, hoje, para nós perdidos, quem melhor que eles poderia verificar a existência do fato e confutá-lo se não fosse autêntico? A impossibilidade moral de erro em homens tão eruditos quão virtuosos cresce ainda de ponto se considerarmos a natureza do acontecimento atestado. A permanência de S. Pedro em Roma era um fato público e notório; seu martírio, sob Nero, deveria repercutir logo em toda a cristandade como notícia de primeira importância. A autoridade, a supremacia, que, como veremos no capítulo seguinte, começou logo a exercer a igreja de Roma sobre todas as demais tinha como fundamento histórico a sua fundação por Pedro. Suposto falso esse fundamento, como explicar o silêncio conivente das igrejas do Oriente, das Gálias e da África, que, sem uma voz de protesto, se submetiam à sua jurisdição? Como conceber ainda que, se Pedro houvera sido martirizado em qualquer outra igreja, permitiria ela em silêncio que a despojassem de seus títulos de glória sem reivindicar com todos os esforços para o estema nobiliárquico de sua origem a honra singular de haver sido 'pupureada com o sangue do grande apóstolo?105
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105. A universidade desta tradição impôs-se até à heresia. Todos os apócrifos ebionitas e gnósticos (os principais são: Evangelium Petri, Acta Petri, Praedicatio Petri e os escritos falsamente atribuídos a S. Clemente: Recongnitiones, Homeliae, Constitutiones apostolicae) que inventaram mil lendas sobre S. Pedro concordam todos em assentar em Roma a sede do seu episcopado.




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Mas se, em face dos princípios da crítica histórica mais desapaixonadamente exigente, essas provas já seriam de si plenamente demonstrativas, não são, todavia as únicas que podemos produzir. Com PAPIAS tocamos os primórdios do século II; INÁCIO DE ANTIOQUIA e CLEMENTE ROMANO levam-nos à era apostólica. Achamo-nos assim na presença de testemunhas coevas.


INÁCIO (m. 107 ou 117), bispo de Antioquia, conviveu longos anos com os apóstolos. Condenado por TRAJANO nos princípios do século II, de viagem para Roma, onde foi supliciado, escreveu várias epístolas a diferentes igrejas, confortando-as na fé e na obediência aos superiores hierárquicos. Numa destas cartas dirigidas aos romanos, depois de lhes pedir instantemente não quisessem, com suas orações, privá-lo da palma do martírio, diz: "Tudo isto não vos ordeno como Pedro e Paulo;106 eles eram apóstolos, eu, um condenado; eles livres, eu servo".107 Nestas palavras INÁCIO supõe como fato conhecido de todos que Pedro e Paulo exerceram a sua autoridade entre os romanos.


Não, contesta o nosso gramático, "onde chegaram as epístolas destes dois representantes do Apostolado aí foram eles realmente mestres, sem haver em rigor necessidade da presença pessoal deles", p. 278. - Sempre o mesmo subterfúgio ridiculamente mesquinho. Semelhante interpretação, se é que se lhe pode dar este nome, está em irredutível antagonismo com o contexto desta epístola e o de todas as outras do glorioso mártir. INÁCIO não fala de doutrina, mas de jurisdição (διατάσσομαι) exercida pelos apóstolos entre os romanos. Mais. O magistério epistolar de Pedro e Paulo foi comum a todas as igrejas; por que, pois INÁCIO escrevendo aos efésios, aos tralianos, aos magnésios, não une estes dois nomes que só associa a propósito de Roma? Por que nomeia ao mesmo tempo Pedro e Paulo senão porque ambos estiveram em Roma? Por que falar em Pedro se este nenhum relação teve com os romanos? De fato, se não esteve em Roma, como aos romanos não escreveu coisa alguma, nada mais de particular tinha com eles, nada mais lhes ordenara do que Tiago, Judas e João.
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106. Carlos Pereira substitui erroneamente a verdadeira tradução por esta outra: "não sou vosso mestre como Pedro e Paulo". Λιατάσσομαι não é ser mestre, mas exercer jurisdição.

107. "Non ut Petrus et Paulus vobis praecipio. Illi apostoli, ego condemnatus; illi liberi, ego usque nunca servus. Ad Rom., c. 4; FUNK, I (2) 219.






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É pois evidente que INÁCIO sabia da viagem de Pedro a Roma.108 Veja o ilustre gramático como é arriscado aventurar-se a criticar documentos que não se conhecem senão em retalhos de empréstimo.

CLEMENTE ROMANO (m. c. 101) foi o terceiro sucessor de Pedro, conheceu-o pessoalmente em Roma e, com muito probabilidade, foi testemunha presencial do seu martírio. É, pois, uma autoridade de valor excepcional. Citemos, apesar de longo, todo o lance da sua epístola ao coríntios, na qual alude ao martírio de S. Pedro. E para que melhor se veja a força do seu testemunho ponhamos, lado a lado, o trecho que traduzo imediatamente do original grego e a versão deturpada e mutilada do gramático paulista:



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108. Cfr. A. HILGENFELD, Historisch-Kritische in dz N. T., Leipzig, 1875, p. 621. O autor é protestante, outrora professor de teologia em Iena. Dele são as últimas considerações acima.

109. I Cor., c. 5, 6 (F. I (2) 67-69)






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A referência à perseguição de Nero, em que juntamente com Pedro e Paulo foi martirizado grande número de cristãos, é manifesta. Clemente abrira a sua epístola com estas palavras: "as repentinas desgraças e calamidades que nos saltearam impediram-me de acudir mais cedo às vossas divergências".111 Diante deste testemunho, que faz o Sr. CARLOS PEREIRA ou o autor de quem o transcreveu cegamente? Mutila o texto, suprimindo-lhe o primeiro e o último período e depois conclui ovante: "Ao martírio de Pedro é vaga a alusão e até parece não coincidir ele com o de Paulo. Tirar, pois, deste tópico... a conclusão de que Pedro e Paulo moraram e morreram juntos em Roma é levar a conclusão muito além das premissas", p. 276. - Sem dúvida, com semelhante crítica de tesoura não há prova nem documento que resista. Mas a ciência deixou sempre estes recursos inconfessáveis a folhetinistas falseadores ou foliculários inconscientes.112


Testemunho de S. Pedro. - Fechemos a série destas provas com o testemunho do próprio S. Pedro, que remata a sua primeira epístola com estas palavras: "sauda-vos a igreja eleita que está em Babilônia e Marcos meu filho", I Petr. V, 18 - Que neste passo com


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110. S. Clemente escrevia de Roma e em toda a epístola opõe sempre a nós - romanos, ao vós - coríntios.

111. Note-se de passagem a solicitude pastoral que da igreja de Corinto mostra o sucessor de S. Pedro.

112. Ouça-se o grande historiador PAULO MONCEAUX: "De ce texte célèbre on doit tirer trois indications précieuses: 1º Clement considérait Pierre et Paulo comme les apôtres de l'Église romaine; 2º il admettait le martyre de Pierre à Roma; 3º il praçait ce martyre au temps de la persécution de Néron. - Or, la lettre a été écrite à Roma vers 95, trente ans après le martyres des duex apôtres, par un homme qui les avait surement connus. Il faut être bien exigeant pour ne pas reconnaitre dans de texte, un témoignage de premier ordre", Revue de histoire et littérature religieuse, mai-juin 1910, p. 227.





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a expressão metafórica de Babilônia indique S. Pedro a Roma, afirmam unânimes todos os antigos intérpretes: PAPIAS, EUSÉBIO, CLEMENTE ALEXANDRINO, S. JERÔNIMO, etc., nem um só há que assim o entenda.
113 Não foram, pois, "os teólogos do papado", p. 266, que inventaram a interpretação como recurso de polêmica. Foram os protestantes que naturalmente acharam uma nova exegese. Babilônia não designa a capital corrupta do império, mas outra cidade; Qual? Não no-la sabem dizer ao certo. Quem aventou Babilônia do Egito; mas esta não passava então de um simples presídio militar cuja população se reduzia a um manípulo de legionários. Quem alvitrou Babilônia da Assíria; mas esta, naquele tempo, como nos atestam ESTRABÃO, PLÍNIO, DEODORO SÍCULO, LUCIANO e PAUSÂNIAS, quase de todo destruída, era pouco mais que um deserto.114

Os que votam por Babilônia do Egito acham inconsistentes as provas em favor de sua homônima da Mesopotâmia. Aos que preferem Babilônia de Assíria os argumentos em pró da outra parecem evidentemente nulos. É de ver aqui a força tenaz do preconceito. Rejeitam os adversários a estada de S. Pedro em Roma afirmada por uma série inumerável de irrecusáveis autoridades e abraçam sem hesitar uma opinião que não tem por si um só testemunho. Sim, não há um só autor antigo que nos fale desta viagem de S. Pedro. A igreja de Babilônia que só muito mais tarde apareceu na história do cristianismo, mas ainda assim teve pretensão a origens apostólicas, nunca reclamou o nome de Pedro como fundador. E quão fácil seria? Não tinha ela , consoante a hermenêutica protestante, a prova mais irrefragável desta origem nas páginas inspiradas?



O Sr. CARLOS PEREIRA, entretanto, para tornar mais plausível a sua interpretação copia a SMITH no seu Dictionary of the Bible: "Em apoio da opinião de que Babilônia designa tropicamente Roma
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113. "De Babylone dissidente veteres et novi interpretes. Veteres Roman interpretantur ubi Petrum fuisse nome verus christianus dubitavit; novi Babylonem in Caldaca. Ego veteribus asssentior". HUGO GREGÓRIO, in I Petri, Opera theologica, Basilese 1732, t. III p. 1112.

114. "Nunc Babylone haec (Seleucia) major est. Illa magna ex parte deserta, ut intrepide de ea usurati possit quod de Megalopoli Arcadiae quidam dixit comicus: "Magna urbs, magnum desertum". STRABO, Geographia, l. XVIII, c. 1. "Ipsius Babylonis exigua quaedam portio nunc habitatur maximaque inter muros pars agrorum cultui est exposita". DEODORO SÍCULO, l, II, c.9. "Babylon chaldaicarum gentium captu diu summam claritatem conditae a Nicatore intra nonagesimum lapidem in confluente Euphatis". PLÍNIO, Hist., Nat. l, VI, c. 30 Cfr. LUCIANO, Charonte, 23; Philopatris, 29, PAUSÂNIAS, Arcadica, l, VIII, c. 23: Οΰδέυ έτι ήν ει μή τείχος.






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(1 Pet., V, 13) citam uma tradição narrada por Eusébio (H. E., II, 15) com a autoridade de Papias e Clemente de Alexandria, para mostrar que a I Pedro foi escrita em Roma. Oecumenius e Jerônimo afirmam que Roma era figurada por Babilônia". Esta opinião , diz ele, deve ser "rejeitada", e poucas linhas adiante afirma que Babilônia de Assíria "nesse tempo era largamente habitada por judeus", p. 267, citando entre parêntesis a autoridade de Josefo, Ant., XV, 3, §1, e Filo, De Virt., p. 1023, de Franc. 1691.

Dificilmente em tão poucas linhas se poderiam amontoar mais falsidades e falsificações. Antes de tudo SMITH afirma precisamente o contrário do que lhe afivela o pastor brasileiro. Copio e traduzo, apesar de longo, quase todo o artigo de SMITH, na palavra Babilônia: "... restam a considerar duas opiniões: 1.ª que Babilônia significa Roma. Em apoio desta opinião cita-se a tradição recordada por Eusébio (H. 1. II, 15), firmado na autoridade de Papias e de Clemente de Alexandria, para provar que I Ptr. foi escrita em Roma. Oecumenius e Jerônimo asseveram que Roma é figuradamente designada por Babilônia. A tradição uniforme e constante dos antigos escritores cristãos é que Babilônia neste passo é nome conhecido de Roma, quartel general das influências anticristãs. Esta opinião sufragada por Grocius, Lardnen, Cave, Whitby, Macnight, Hales e outros é hoje geralmente adotada, is th opinion generally adopted now (cf. Speaker's Comm, anda Burger in Strack u. Loeckler's Kgf. Komm. em loco). A suposição muito natural que por Babilônia se designe a velha Babilônia de Assíria deve sua origem a Calvino "to whom it was a "stronhod o popery" e foi defendida por Lithfott e Bentley. Mas Babilônia apesar de largamente habitada por judeus em tempos anteriores a Calígula achava-se nos fins do governo deste imperador (c. A. D. 40) quase de todo despovoada de sua colônia judaica (Jos. Ant., XVIII, 9, § 9)
e é difícil supor que uma igreja cristã composta de hebreus convertidos nela se tenha podido estabelecer em menos de um quarto de século depois da catástrofe".
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115. WILLIAM SMITH, D. C. L.,. L. L. D., and J. M. FULLER, M. A., A dictionary of th Biblie (2), Londron 1893, Vol.I, p. 332. Não posso acabar de me convencer que o pastor brasileira tenha truncado conscientemente a citação do seu correligionário. Só me resta uma explicação que abraço sem hesitar: ou o Sr. Carlos Pereira possui outra edição do famoso dicionário ou encontrou a sua citação em outro artigo. O fato encerra, porém, uma lição memorável. As opiniões históricas de certos protestantes variam com as edições de seus dicionários ou os preconceitos dos autores de diferentes artigos. Como se vê estamos bem longe de uma verdade conquistada "pela alta crítica moderna". - E já que o Sr. Calos Pereira mostra tão acentuada preferência pela erudição fácil das enciclopédias, consulte ainda T. K. CHEYNE anda J. SUTHERLAND BLACK, encyclopedia Bíblica, Londres 1902, Vol., III, col.3681; JAMES HASTINGS, A dictyionary of the Bible, Edimburgh 1898. Vol.,I, p. 213, onde se diz que a evidência interna e externa militam em favor da interpretação tradicional. A outra foi introduzido por Calvino "por motivos polêmicos".




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Abro JOSEFO FLÁVIO no lugar indicado e que leio? Que Herodes Magno antes da era vulgar depôs a Ananel, sumo pontífice, oriundo dos judeus que haviam sido deportados em massa para Babilônia. Quem duvidou jamais deste fato? Mas que prova ele em favor da existência de uma numerosa colônia judaica em Babilônia na época em que S. Pedro escreveu a sua primeira epístola? O próprio FLAVIO, no l. XVIII, c. 9, falando dos tempos de Calígula (estamos, pois, na idade apostólica) conta-nos como os judeus, que habitavam na Mesopotâmia e em Babilônia, acossados pelos idólatras fugiram, a princípio, para Selêucia, mas também aí alcançado pelo ódio homicida dos seus perseguidores, pereceram quase todos em horrenda carnificina. Outros foram dizimados pela peste. (Cf. RENAN, L'Antichrist2 Paris 1873, p. 122, nota). O testemunho de Josefo, portanto, longe de contradizer, confirma o dos outros autores que já referimos.

E FILO? Na obra citada pelo Sr. CARLOS PEREIRA diz-nos que Petrônio (preside romano na Síria em tempos de Calígula) vira com os próprios olhos que os judeus habitavam em Babilônia e possuíam muitas outras satrapias. Para que não pareça haver contradição como o que afirma FLÁVIO basta ler três páginas adiante. Referindo-se a tempo posterior diz: "excetuada parte de Babilônia e de outras prefeituras, todas as cidades circundadas de campos férteis são habitadas por judeus".116

A expulsão dos israelitas de Babilônia, referida por FLÁVIO, coloca-se naturalmente entre as duas afirmações de Filo, concordando-as. Os dois autores judeus não discordam dos pagãos: PLÍNIO, LUCIANO, PAUSÂNIAS, etc. Conclusão: a cidade de Babilônia (Babylon-onis) não passava de uma deserto; na região babilônia não havia judeus quando S. Pedro escreveu a sua epístola. Aí está o em que dá o repetir papagaiamente o que disseram outros. A singular prerrogativa do crítico paulista de citar autores que não conhece expõe-no frequentes vezes ao desmancha-prazeres destas desagradáveis surpresas.
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116. "ΠάΠάσαι γάρ, έξω μέρους, βραχεος Βαβυλων, και των αλλων σατρσπειων αί άρετωσαν έχουσιν οικήτας".PHILO, Opera, , Berolini 1915, t. VI, PO. 207. A outra citação, p. 4. Na edição de Leipzig, 1829, t. VI, p. 131.




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Passemos às razões intrínsecas.

Não deixam de ser interessantes as condições do nosso crítico em abono de sua mal parada exegese. Numa carta, diz ele, não está bem uma locação figurada. "Não é crível que no estilo epistolar que se distingue pela simplicidade e singeleza didática, empregasse Pedro uma figura...", p. 267. - Não sei que ojeriza lhe veio ao ilustre gramático com as metáforas. Não se usam metáforas no estilo epistolar? Mas é inaudito! Aponte-me o Sr. CARLOS PEREIRA qualquer epistolário, sagrado ou profano, de PAULO ou de CÍCERO, de Mme. de SEGIGNÉ ou de VIEIRA, e eu las colherei a mãos cheias. Mas nem é necessário sair da epístola que examinamos. Cinco versículos acima pinta-nos S. Pedro o demônio que "tamquam leo rugiens cicuit quaerens quem devoret". Que bela metáfora: Ademais, se o ensino de Pedro tem a forma de carta, o seu estilo conserva-se sempre nas eminências de uma nobreza e dignidade onde não só não descabem, mas são até ornamento natural as locuções figuradas. E que mais viva metáfora que chamar Babilônia à cidade da qual mais tarde, na majestade tuliana do seu estilo, dirá S. LEÃO MAGNO que: "cum penes omnibus dominaretur gentibus onium gentiom serviebat erroribus et magnam sibi videbatur assupsisse religionem quia nullam respuebat falsitatem?".117 - E não haveria perigo de erro ou equívoco da parte dos leitores, como parece temer o Sr. CARLOS PEREIRA? Não havia. Entre os judeus era uso corrente apelidar Babilônia a cidade dos Césares. Entre cristãos não o era menos.118 Qualquer dúvida que ainda pudesse pairar no espírito dissipá-la-ia Silvano, portador da carta.

A segunda consideração do ilustre pastor é simplesmente digna de lástima. "Só quarenta e tantos anos mais tarde é que a figura recebeu a sanção do N.T. com a publicação do Apocalipse... Antes do Apocalipse não consta, segundo observa Eliot, que escritor algum chamasse Roma de Babilônia", p. 267. - O que vale tanto como dizer: na epístola de S. Pedro não se deve encontrar a metáfora Roma-Babilônia porque só aparece pelo primeira vez no Apocalipse. E a metáfora aparece pela primeira vez no Apocalipse porque não a

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117. LEO MAGNUS, Sermo 1 in Nativ. Petri et Pauli (ML, LIV. 423).

118. Dos judeus em particular escreve CHR. SCHOETTGEN: "Judaeis solemne erat Romam Babylonem vocare, quia eo modo quo babylonii judaeis sub templo primo vexarunt tandem totam regionem cum templo devastarunt, sic romani fecerunt templo secundo". Horae hebraicae et talmudicae, Lipsiae 1733, t. I, p. 1050. Cfr. ibid. p. 1125 vários textos de antigos rabinos em apoio desta asserção.





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usara ainda Pedro. Aí têm os professores de filosofia elementar um exemplo típico de círculo vicioso para propor aos seus estudantinhos a lógica.


Deixemos estas infantilidades e concluamos. Tão naturalmente se impõe aos espíritos sensatos a interpretação católica que em nossos dias, serenados os furores anti-romanos, os mais ilustres entre os críticos protestantes, de conserva com os racionalistas, a ela vão aderindo em número de dia a dia drescente. HOFFMANN, THIERSCH, WIESINGER, EWALD, BAUR, SCHWEGLER, ZAHN, HARNACE, ZELLER, RENAM e outros muitos já não discordam da interpretação tradicional.119

Vem ainda confirmá-la o inciso que imediatamente se segue às palavras que comentamos: "Saúda-vos a igreja que está em Babilônia e Marcos meu filho". Ora, Marcos nesta época (c. 1-62) não se achava em Babilônia mas em Roma. Di-lo abertamente S. Paulo em duas epístolas escritas durante o seu primeiro cativeiro na capital do império. Na epístola aos colossenses, IV, 10, "Saúda-vos Aristarco... e Marcos, primo de Barnabé; na epístola a Filemon v. 24: saúda-te Marcos, etc.". Nem é tudo. O exame interno do nosso segundo evangelho, em admirável consonância com os mais antigos testemunhos históricos, atesta-nos que Marcos escreveu as suas páginas inspiradas em Roma, sintetizando nelas a pregação e os ensinamentos do príncipe dos apóstolos. PAPIAS, JUSTINO, IRINEU, ORÍGNES CLEMENTE ALEXANDRINO depõem contestes em favor desta verdade.120





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119. HOFFMANN, Schriftbeweiss, 1855, II, 641; II, THIERSCH, Kritik der newtestamentichen Schrften, Erlangen1845 p.110; WIESINGER, Der erste Bief des Apostels Petrus, Koerningsberg 1856, p. 339: EWALD, Sieben Sendschreiben, Goettinghen 1870, p. 2; F. CHR. BAUR. Paulus, der Apostel Jesu Christi (2), Leipzig, 1867, I, p. 245; A. SCHWEGLER, Das nac-apostolische Zeitalter, Tubingen 1845, II, 18 ss.;ZAHN, Einleitung in das N. T., Lepzig 1899, II(2), 17;HARNACK, Die Chronologie der altchristlichen Litteratur, Leipzig 1897, I, 455; E. ZELLER, Zeitschrift fuer wissenschaffl, Theologie, de Hildenfeld, 1876, pp. 34-35; RENAN, L'Antichist (2), Paris 1875, p. 122: "afin de dépister les soupons de la police, Pierre choisit pour désigner Rome le nom de l'ntique capitale de l'impiété asiatique, nom dont la signification symbolique n'échappait à personnne". Citemos ainda PH. SCHAFRF, tantas vezes escolhido como seguro mentor pelo novo gramático: "Todas estas dificuldades [expulsão dos judeus de Babilônia, falta de documentos positivos, presença de S. Marcos em Roma no ano 61-3] obrigam-nos a voltar à primitiva exegese, única seguida na antiguidade, segundo a qual Babilônia designa Roma" Geschiichte der apololischen Kerche(2), Leipzig 1864, p. 368. Nesta e nas páginas precedentes encontrará o Sr. Carlos Pereira diluídos pelo seu correligionário todos os argumentos que enxertou tão sem crítica no seu "estudo dogmático-histórico".

120. PAPIAS, apud EUSÉB., H. E., 1, III, c. 39 (MG, XX, 299);IRINEU, Adv. Haer., 1, III, c. 1, n. 1 (MG, VII 845); ORÍGNES, ap. EUSÉB., H. E., 1, VI, 14, (MG, XX, 551), Cfr. FOUARD, Saint-Pierre(1), Paris, Lecoffre, 1903, c. XX, pp. 440-457.





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À vista de tudo isto podemos deixar ao crítico paulista a consolação de entoar triunfante o seu hino de vitória: "assim se desfaz como o pó diante do vento a melhor prova que os defensores do Papado possuem da estada de S. Pedro em Roma", p.267.


S. Pedro, bispo de Roma. - Depois de havermos longamente provado a estada de S. Pedro em Roma, não há por que nos detenhamos em demonstrar que o apóstolo foi outrossim bispo dessa cidade. Nega o Sr. CARLOS PEREIRA, mas com a mesma sem-razão com que recusara admitir a primeira parte da tese. O testemunho histórico tem o mesmo valor aqui como lá. Não abusaremos da paciência do leitor aduzindo nova e interminável lista de autoridade. Basta observar que IRINEU, CAIO, o autor anônimo do Carmen adversus Marcionem, S. CIPRIANO, S. OPTATO, S. AGOSTINHO, S. JERÔNIMO, SULPÍCIO SEVERO 121 etc. atestam unânimes o episcopado romano do príncipe dos apóstolos. Basta lembrar que, sem exceção de um só, todos os catálogos dos bispos de Roma, organizados a mais acurada diligência sobre os documentos primitivos pelos antigos escritores, assim do Ocedente como do Oriente, colocam invariavelmente o nome do Pedro à frente de todos; com ele abrem a lista nunca interrompida da sucessão episcopal de Roma.122




Não posso deixar de insistir sobre o testemunho de IRINEU e de EUSÉBIO de novo falseados pelo Sr. CARLOS PEREIRA. diz o texto de Irineu: "Fudantes igitur et instuentes123 beati apostoli ) Petrus et Paulus] ecclesiam, Lino epscopatum tradiderent... Succedit autem ei Anacletus. Post eu tertio locam ab apostolis
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121. CAIO, do papa Vitctorm diz: "Tertius ac decimus a Petro fuit Romae episcopus". Ap. EUSÉB., H. E., 1 V, c. 28 (MG, XX, 511). S. JERÔNIMO, "Simon Petrus... Romam pergit ibique 25 annis cathedram sacerdotalem tenuit". De vir., Illust., c. 1 (ML, XXIII, 607). S. AGOSTINHO: "Petro enim successit Linus" Epist., 53 (165) c. ', c. 2 Ad Generosum )ML, XXXIII, 196). "Cathedra tibi quid fecit Ecclesiae romanae in qua nunc Anasthasius sedit". Contra literas Petiliani, 1. II, c. 51 (ML, XLIII, 300). SULPPÍCIO SEVERO, falando do tempo de Nero: "Eo tempore divina apud urbem Romam religio invaluerat, Petro ibi episcopatum gerente". Hist. Sacra,1. II, n. 28 (MG, XX, 145). Os outros testemunhos já foram citados. Cfr. Apêndice.

122. Quem quiser verificar a asserção poderá consultar 19 destes catálogos organizado por antigos escritores latinos, gregos, siríacos, árabes, etc., apud DE SMEDT, Dissert. in primam aetatem Hist. Eccles., Gand 1876, apêndice K, pp. 83-96.


123. A propósito deste inciso pondera o nosso crítico: "Lino, segundo Irineu, foi ordenado bispo não só por S. Pedro, mas também por S. Paulo. Portanto se por este fato é ele sucessor de S. Pedro, o é também de S. Paulo", p. 287. - Não é por este fato, não, Sr. O bispo de Roma pode ser ordenado por qualquer bispo. A sucessão no primado lhe advém dos títulos divinos que só Pedro e não Paulo possuía; já o dissemos.





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episcopatum sortitur Clemens".124 EUSÉBIO na História Eclesiástica: "Linus primus post Petrum... ecclesiae romaneae epicopatu adeptus est".125

Adulterando visivelmente o significado dos textos acima, afirma o Sr. CARLOS PEREIRA que "Lino é considerado o primeiro bispo tanto por Irineu como por Euzébio" para logo concluir: "a exclusão que fazem estes dois eminentes doutores da antiguidade cristã do nome de Pedro da lista dos primeiros bispos de Roma dá em terra com as pretensões destes", p. 288. - Onde a exclusão? Onde a afirmação absoluta que Lino foi o primeiro bispo de Roma? O primeiro depois de Pedro, depois dos apóstolos, post Petrum, ab apostolis, isso sim, afirmam IRINEU e EUZÉBIO. Só o não vê quem tem os olhos vendados. Na sucessão episcopal de Roma os dois escritores dão a Pedro um lugar de distinção, de honra, como a apóstolo e fundador da dinastia espiritual dos pontífices, mas de modo algum o excluem do episcopado. Se Lino foi bispo de Roma e sucedeu a Pedro, Pedro foi outrossim bispo de Roma, que isto quer dizer suceder. Quem diz: SCHELING foi depois HEGEL o primeiro professor de filosofia em Berlim, nega, porventura  que também HEGEL, ensinasse filosofia na capital da Prússia? Quem escreve: FELIPE V foi depois dos Habsburgos o primeiro rei da Espanha, exclui talvez Habsburgos do trono espanhol? Irineu e Eusébio, portanto, não discordam em ponto algum do consenso dos outros escritores que já deixamos citados.126
Mas, neste ponto não se demora o Sr. CARLOS PEREIRA em analisar documentos. Ao fato histórico e real opõe teorias. Pedro não foi bispo de Roma porque não o podia ser; e não o podia ser por duas razões: 1) Porque os apóstolos eram bispos universais e não podiam prender-se a igrejas particulares: "Absurdo é, portanto, ser Pedro... bispo universal... e ser ao mesmo tempo bispo local ou particular de Roma. O mesmo fora dizer que o presidente federal poderia ser simultaneamente governador do Estado de S. Paulo", p.273-4. - Por que, porém, seja absurdo não se dignou declarar-nos. Talvez por incompatibilidade essencial? Mas o Papa não foi

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124. Adv. Haer., III, 3 (MG, VII, 849).

125. Hist. Eccles., l. III, c. 4 (MG, XX, 222).

126. Aliás, EUSÉBIO no seu Chronicon, em texto prudentemente calado pelo Sr. Carlos Pereira, se exprime com uma clareza insofismável: "Petrus apostolus cum primum antiochenam ecclesiam fundasset, Romam mittitur, ibique evangelium praedicans XXV anis eusdem urbis episcopus perseverat... Post Petrum, primum romanam ecclesiam tenuit Linus". Chronicon, l. II (MG, XIX, 539, 543). À perspicácia do gramático paulista o inventar uma nova tortura crítica que o desembarace deste texto importuno.





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sempre e ainda hoje bispo de Roma e bispo de toda a Igreja? Porventura por ser Pedro apóstolo? Mas esqueceu o Sr. CARLOS PEREIRA que dez páginas antes (p. 262) havia chamado - e acertadamente - a Tiago, bispo de Jerusalém? A comparação aduzida prova apenas que o adversário não está habituado a analisar o valor lógico de seus argumentos. A incompatibilidade entre a presidência da república e a de um Estado particular resulta, não da natureza das coisas (e para haver absurdo é mister antilogia nos elementos essenciais de uma ideia  mas de uma simples disposição positiva de nossa carta constitucional. Em outra constituição os dois cargos poderiam coexistir harmoniosamente numa só pessoa como uma só e mesma pessoa poderá ser chefe de sua família e presidente de sua nação, rei de Prússia e imperador da confederação germânica.




2) A segunda razão é que "não havia ainda nos tempos apostólicos episcopado no sentido técnico e restrito da palavra, no governo hierárquico da igreja", p. 273. Se o nosso autor, deixando o seu comodíssimo método de asserir sem provas, se desse ao trabalho de corroborar esta afirmação com documentos históricos de valor, veria, ao pôr mãos à obras, toda a impossibilidade da empresa. Nada mais exuberantemente atestado pelos antigos monumentos que a origem apostólica do episcopado. S. Tiago foi bispo de Jerusalém no sentido técnico e restrito da palavra. S. João, no Apocalipse, dirige-se a 7 bispos da Ásia Menor que o eram no sentido técnico e restrito da palavra. S. INÁCIO DE ANTIOQUIA, contemporâneo dos apóstolos, fala-nos frequentemente da hierarquia eclesiástica: "Sem bispo, sem sacerdotes e sem diáconos não há igreja".127 Em cada igreja local o bispo é o intérprete autorizado da doutrina apostólica, é o representante de Deus. A instituição divina do episcopado é claramente afirmada na dedicatória da epístola aos filadelfos: "O bispo, os sacerdotes e os diáconos foram designados no pensamento de Jesus Cristo, que segundo a sua vontade os estabeleceu e confirmou pelo Espírito Santo".128 HERMAS, SÃO CLEMENTE ROMANO, S. DIONÍSIO DE CORINTO, S. IRINEU,
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127. Ad Trall., III 1-2 (F. I(2), 205).

128. Cfr. Ad. Ephes., II, 2; III, 2; IV, 1 (F., 1(2), 175, 177, 179); Ad Magnes., II; III, 1; XIII, 1 (F., I(2), 193, 201);; Ad Trall., III, 1; VII, 1-2 (F, I(2), 205, 207-9); Ad Philad., I, 1; III, 2; IV; VII, 1; (F I(2), 225, 227, 259); Ad Smyrn., VIII, 1 (F, I(2), 241).





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TERTULIANO, ORÍGENES,129 escritores do primeiro e segundo século (e princípio do terceiro) afirmam como verdade notória e indiscutível a origem apostólica do episcopado. Mais. Todos os catálogos e listas episcopais organizadas por HEGÉSIPO, IRINEU, EUSÉBIO para as igrejas de Roma, Antioquia, Alexandria e Jerusalém mostram-nos uma série ininterrupta de bispos cujo primeiro termo é um apóstolo ou discípulo imediato dos apóstolos.130 Mas não há porque insistirmos em coisa tão evidente. LEIBNIZ, pondo a verdade acima dos preconceitos de seita, escreveu: "De discrimine episcopi et prebiteri utrum et quatenus a jure divino proficiscatur in Ecclesia quidem nulla magnopere dubitatio aut obscuritas est, protestantes vero non solum contra ecclesiam contendunt sed et inter se".131
Outro protestante, o barão VON STARCK reconheceu formalmente que: "em favor da primazia do episcopado de S. Pedro em Roma temos o testemunho de toda a antiguidade cristã desde PAPIAS e IRINEU que viveram ambos no segundo século e dos quais o primeiro era discípulo de S. João... Afirma BASNAGE que nenhuma tradição tem por si maior número de testemunhas: pô-la em dúvida é destruir toda a certeza histórica. Assegura PARSON que nenhum dos antigos pôs em controvérsia a fundação da igreja romana por S. Pedro e a sucessão dos papas a este apóstolo... PUFFENDERF na sua Monarchia Pontifices romani... GRÓCIO nas suas Cartas exprimem-se declaradamente em favor da primazia da igreja Romana, de sua hierarquia e de sua sucessão episcopal... verdade, aliás, tão incontestável que nem LUTERO nem CALVINO, nem os Centuriadores de Magdeburgo ousaram impugná-la.
132
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129. HERMAS, Pastor, Vis. III, 5, 1, (F. I(2), 361); CLEM. ROM., I cor., XLII-XLIV, (F, I (2), 1134-115); DIONÍS. Cor., ap. EUSÉB., Hist. Eccles., III, 4 (MG, XX, 222); IRINEU, Adv. Haeres. III, 3, n. 4 (MG, VII, 872); TERTUL., De Praescript., XXXII (ML, II, 44); ORÍGENES, Comment, in epist. ad Rom., X, 41 (MG, XIV, 1289). CLEM. ALEX., ap. EUSÉB., Hist. Eccles., III, 33 (MG, XX, 258).

130. Para a igreja de Roma, Cfr. IRINEU, adv. Haer., III, 3 (MG, VII, 849-52); HEGÉSIPO, ap. EUSÉB., Hist. Eccles., IV 22 (MG, XX, 378); EUSÉB., Hist. Eccl., II, 24 (MG, XX, 206. IV 4; V, 12 (MG, XX, 310,459).

131. LEIBNIZ, Systm der Theologie, Mainz 1825, p. 302. Toda esta obra poder considerar-se como a abjuração deste grande gênio que só interesses de ordem mateiral retiveram no protestantismo.

132. VON STARCK, Theoduis Gastmahl oder ueber die Vereinigung der erschiedelnen christichen Religons-Societaetens. Francfurt a. M. 1821, pp. 25-27. (O livro é anômino).





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Só para a escola crítica do gramático paulista não havia ainda nos tempos apostólicos episcopado propriamente dito no governo da Igreja.133

Mas se, mutilando, torturando e falseando textos é possível amordaçar as testemunhas mais irrefragáveis, não se pode impor silêncio às pedra: lapides clamabunt. Aí está a arqueologia a bradar na mudez eloquente de seus monumentos. Em Roma, os bronzes, os mármores, as pedras, os afrescos, tudo fala de S. Pedro. O túmulo do apóstolo na colina Vaticana, o célebre medalhão de bronze descoberto no cemitério de Domitila, a cathedra Petri do cemitério de Priscila na Via Salaria e mil outros monumentos explicados por antiquíssimas tradições locais demonstram irrefutavelmente o episcopado do príncipe dos apóstolos na Cidade Eterna.134
É uma evidência plástica, "uma evidência monumental" na frase enérgica de RODOLFO LANCIANI, o mais autorizado conhecedor moderno da topografia de Roma antiga. "Para o arqueólogo, diz ele, a presença e o martírio de S. Pedro e de S. Paulo são fatos estabelecidos sem a menor sombra de dúvida por simples evidência monumental".135 Unam-se agora os testemunhos escritos com os arqueólogos e concluir-se-á com J. B. DE ROSSI, o Colombo de Roma subterrânea: "queste belle armonie della storia scritta com i monumenti non sono effetti del caso, na pegni della veritá dell'una e degli altri".136

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133. Quem desejar mais amplo desenvolvimento da questão pode consultar VON DANIN-BORKOWSKI, Die neuren Forschungem ueber die Antaenge des Episcopats, Freib. en Br. 1900; MICHIELS, Les arigines de l'Episcopat, Ouvain, 1900; BATIFFOL, L'Église naissante et le catholicisme, Paris, 1909; BRUDERS, Die Verfassung der Kirche von den ersten Jahrzehnten der apotolischen Wieksamket an bis zum Jahre 170 nach Chr.,Mainz 1904; Dietionnaire apoligétique de la foi catholique, de D'ALÉS, ad v. Evêques.

134. Das inumeráveis memórias de S. Pedro conservadas em Roma algumas são certamente autênticas, outras de autenticidade provável, outras ainda certamente lendárias. A natureza deste escrito nos permite a longa digressão arqueológica necessário ao estudo minucioso de cada monumento em particular. Nosso argumento firma-se no conjunto deles. Para o exame crédito e o valor probativo de cada memória, Cfr. H. GRISAR, Roma alia fine del mondo antico (2), Roma 1908.

135. R. LANCIANI, Pagan and Christian Rome, Londrona Macmillan, 1892, p. 123. No mesmo lugar diz ainda LANCIANI: "Houve tempo que autores pertencentes a credos diferentes faziam quase um caso de consciência o afirmar ou negar a priori estes fatos consoante aceitavam ou rejeitavam a tradição de uma igreja particular. Hoje é esta uma mentalidade já superada ao menos por aqueles que seguem os progressos das novas descobertas e da literatura crítica", Oiyci audabte a o, 125: "Não há acontecimento da época imperial ou de Roma imperial atestado por tantos monumentos convergentes todos para a mesmo conclusão - a presença e o martírio dos apóstolos na capital do império".

136. Bollettino de archeologia cristiana, 1864, p. 86. As escavações e descobertas posteriores só vieram reforçar as conclusões do genial arqueólogo romano. Quase meio século depois escreve MONCEAUX: "Les faits archéologiques, comme les témoignages irrécusables de Clément et Caius, s'accordent avec cette tradition romaine, si constante, se ancienne, si vraissemblable en elle-même, à laquelle on n'oppose que des légendes tardives, sans valeur e sans portée, des gloses de fantaisie e des hypothèses san consistance" Revue d'histoire et de littérature religeuse, 1910, p. 238.








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Objeções do Sr. Carlos Pereira. - Até aqui construímos. Construímos como os operários que trabalhavam no templo de Jerusalém, com a trolha num das mãos e a espada na outra, edificando e combatendo.
É tempo de provarmos mais de propósito a têmpera das armas adversárias.
Para rejeitar tanto multidão e tanto peso de testemunhos são de esperar provas invencíveis, esmagadoras. E, no entanto, quem tal crera? Não podem os protestantes alegar um só documento positivo em favor de sua tese. Todos os argumentos que trazem à praça são negativos, são argumentos deduzidos ex silentio. Ora, advertem todos os críticos que o argumento ex silentio é de uso delicadíssimo. Para empregá-lo com êxito é mister demonstrar não só que o autor conhecia o fato por ele calado, mas que o devia mencionar expressamente. Semelhante demonstração exige que se conheçam por miúdo todas as circunstâncias de tempo, lugar, pessoas, que acompanharam o seu escrito. Preenche a prova protestante estas condições? É o que nos resta a ver.

Silêncio de S. Lucas. - S. Lucas, dizem, nos Atos dos Apóstolos, não menciona a viagem de S. Pedro. - Que importa? Quis ele dar-nos uma história completa da igreja pimitiva? De modo nenhum. Sua narração abrange apenas os primeiros fatos ocorridos em Jerusalém para restringir-se pouco depois às excursões S. Paulo de que foi o fidus Achates. Nem mesmo de S. Paulo nos conta ele todo o ministério evangelizador. Muitas viagens fez o apóstolos das gentes que só conhecemos pelas suas epístolas. Ora, de S. Pedro que nos dizem os Atos? Que libertado do cárcere em que o encerrara o rei Agrippa abiit in alim locum (XII, 17). Para onde, não no-lo determina. A frase de Lucas deixa, pois, toda a sua força aos nossos argumento positivos. A própria expressão indeterminada in alium locum parece indicar que se trata de uma viagem extraordinária. Quando Pedro ia de uma lugar para outro da Palestina ou da Ásia Menor, Lucas menciona-o sempre expressamente. Aqui, silencia. Talvez motivos de conveniência hoje a nós desconhecidos (provavelmente, a perseguição de Nero que já





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negrejava no horizonte quando forma escritos os Atos) lhe aconselhavam a reticência.

- Narra-nos ainda S. Lucas (XXVIII, 15) que em chegando S. Paulo a Roma lhe saíram os irmãos ao encontro na Via Ápia, sem mencionar entre eles S. Pedro. Não declina explicitamente nome algum. Aqui uma simples ausência temporária explica o silêncio do autor. Não pretendemos absolutamente que S. Pedro de tal modo fixasse a sua residência em Roma que dela nunca se apartasse em longas ou breves excursões apostólicas, deixando em seu lugar homem de reconhecida prudência e santidade.
- No mesmo cap. XXVIII, v. 23, conta o autor dos Atos que, convocados os principais dentre os judeus de Roma, pediram a Paulo lhes dissesse o que sentia acerca da nova religião, porque, acrescentavam, "o que sabemos desta seita é que em toda a parte a impugnam". E CARLOS PEREIRA logo de concluir: não é absolutamente crível que sendo S. Pedro bispo naquela cidade desde o ano 41... tivesse deixado os representantes da colônia judaica na completa ignorância sobre a seita dos Nazarenos, isto é, sobre o Evangelho de Jesus Cristo", p. 268. - Se houvera melhor atendido às circunstâncias do tempo e às disposições psicológicas dos israelitas dispersos não veria de certo esta absoluta incredibilidade do fato. Chegando a Roma, S. Pedro muito provavelmente começou a pregar o Evangelho entre os seus compatriotas nas numerosas sinagogas que então existiam na capital do Império. Alguns abraçaram o Evangelho, outros, a maior parte, repeliram-no. Depois de inúteis tentativas o apóstolo volveu-se para os pagãos, onde mais abundante se lhe afigurava a colheita de almas. No fim de alguns anos a cristandade romana era composta principalmente de gentios convertidos; e tão depressa medrara a nova igreja que a sua fama já se havia espalhado por todo o mundo, como no diz o próprio S. Paulo escrevendo aos Romano (I, 8), os obdurados filhos de Israel ficaram em boa parte parte alheios ao grande movimento religioso da cidade dos Césares. Ademais, quer parecer-nos que os judeus não falaram a Paulo com sinceridade e lisura. Calaram talvez o muito mais que sabiam sobre a nova religião para exprimir o que manifestava o seu desprezo pela "seita". Depois dos tumultos excitados em Roma, no tempo de Cláudio, 137 procuraram os fiéis da Sinagoga extremar-se dos novos prosélitos a fim de não ser envolvidos

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137. Cfr. Suetônio, CLAUD., C. 25.




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a mesmo perseguição. A chegada de Paulo despertou a curiosidade deste soberbos próceres do judaísmo que haviam menosprezado a pregação do humilde pescador da Galiléia. O nome do antigo discípulo de Gamaliel, a qualidade de Fariseu e doutor da lei, celebrizado já nas sinagogas da Diáspora pelo ardor das suas pregações, atraíram novamente os principais da colônia judaica, que o quiseram ouvir. Mas Paulo não foi mais feliz que Pedro. Fora alguns poucos fiéis à graça, os outros endureceram na sua obstinação. O apóstolo repreendeu-os asperamente e dirigiu-se aos gentios: "Notum ergo sit vobis, quoniam gentilibus missum est hocsalutare Deis et ipsi audente".138 
Nenhuma maravilha, pois , que numa cidade em que os judeus se contavam aos milhares, alguns, induzidos pelos motivos acima, houvessem podido desprezar os cristãos e dizer, sincera ou fingidamente, a Paulo que pouco sabiam da nova "seita".
Nulo é pois o argumento tirado do silêncio de Lucas. Vamos ao

Silêncio de S. Paulo. - Na sua epístola aos Romanos o grande apóstolo saúda nominalmente mais de vinte irmãos. Ora, "absolutamente é incompreensível que fossem saudadas as ovelhas e não o pastor", p. 264. - Não é tal. S. Paulo escreve aos Efésios e não saúda a Timóteo que lhes deixara como bispo; escreve aos coríntios, aos gálatas, aos tessalonicenses  aos colossenses, ao hebreus e não lhes saúda os pastores. É possível que os portadores destas epístolas levassem especiais recomendações para os superiores hierárquicos. Não convinha englobar o nome do príncipe dos apóstolos numa multidão de humildes fiéis. Mais. Sabia S. Paulo que naquela ocasião se achava S. Pedro em Roma? Era talvez prudente nomeá-lo numa epístola pública que podia ver às mãos dos infiéis? Aí estão muitas razões que explicam o silêncio de Paulo e o tornam "absolutamente compreensível", sem de modo algum constranger-nos a rejeitar os documentos positivos já estudados.

- Mas, insiste o adversário, S. Paulo tinha por princípio "não edificar sobre fundamento alheio" como ele o declara nesta mesma epístola.139 "Se S. Pedro ali tivesse a sede de seu episcopado, S. Paulo não invadiria anarquicamente diocese alheia", p. 264.

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138. Act., XXVIII, 28; cfr. ibid., 23-28.

139. Ad Rom., XV, 20.






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Passe o cru da expressão. Antes de tudo, o princípio aqui enunciado por S. Paulo não é universal nem foi por ele sempre observado com inquebrantável rigidez. É sabido que o apóstolo das gentes pregou nas igrejas de Damasco, Antioquia e Jerusalém que não haviam sido por ele fundadas. Além disso, porém, o argumento aduzido, se algo prova, prova justamente o contrário do que se pretende.Leia-se todo o capítulo XV. Aí declara Paulo que não costumava pregar o Evangelho onde Cristo já fora anunciado a fim de não edificar sobre fundamento alheio. "Por isso, continua ele, também me via embaraçado muitas vezes para vos ir ver e não o tenho podido fazer até agora. Entretanto, não tendo já motivo para me demorar mais nestas terras e desejando desde muitos anos ir ver-vos, quando me puser a caminho para a Espanha espero que de passagem vos verei".140 Como se vê, o contexto funda uma conclusão oposta à que pretende o gramático brasileiro. Paulo comunica que, tencionando ir à Espanha, verá de passagem os romanos com os quais, de há muito, desejava entrar em relação. Não se deterá porém, porque não costuma edificar sobre fundamento alheio. É a afirmação implícita de que outro edificara antes dele. Já o dissera no princípio da epístola: "vossa fé é conhecida em todo o mundo"141 Já confessara que "os romanos estavam cheios de caridade, cheios de toda a ciência".142 Pouco depois dirá que eram tão submissos aos seus superiores eclesiásticos que "a obediência deles era notória em toda a parte".143
Antes pois da vinda de S. Paulo, já havia em Roma uma cristandade florescente, cuja existência e virtude eram conhecidas em todo o mundo cristão. Quem a fundara? Pedro, respondem todos os documentos. Negando a viagem de Pedro a Roma, os protestantes puseram-se à cata de novo fundador. As hipóteses, como era de esperar, enxamearam, qual a qual mais cerebrina. A menos inverossímil para CARLOS PEREIRA é que "tendo essa igreja o seu início mui provavelmente nos forasteiros convertidos por S. Pedro no dia de Pentecostes em Jerusalém, o nome deste apóstolo ficou indelevelmente ligado à nova comunidade, de que ele fora indiretamente o fundador", p. 285.




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140. Ad Rom., XV, 22-24

141. Ad Rom., 1, 8.

142. Ad Rom., XV, 14.

143. Ad Rom., XVI, 19.







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Não lhe peço provas históricas desta ficção poética, porque não seria capaz de me aduzir uma só. Considero a hipótese em si mesma. É admissível que os apóstolos, na sua pregação, houvessem até então descurado Roma, a capital do império? Não é infinitamente mais provável que a cidade, cabeça do mundo, fosse convertida e cultivada na fé pelo príncipe dos apóstolos? Haverá coisa mais inverosímel que um romano convertido por S. Pedro tivesse, de volta à sua pátria, simples leigo e sem missão apostólica, não digo, persuadido um ou outro companheiro, mas fundado uma igreja que em poucos anos subiu a universal nomeada? A que extravagâncias leva um preconceito! Mais. Entre os ouvintes de S. Pedro em Jerusalém havia partos, medos, elamitas, frígios, egípcios, cretenses, árabes, etc., etc. (Act II, 9-11). Aplicai a teoria de CARLOS PEREIRA e tereis S. Pedro fundador indireto de todo este mundo de igrejas" E, no entanto, a história, obstinada, só associa o nome de Pedro à igreja de Roma. Que mau fado persegue os protestantes! Não acham uma só vez o nome de Pedro separado do de Roma e ligado exclusivamente a outra igreja!
O exame da epístola aos Romanos, longe, pois, de invalidar os nossos argumentos anteriores vem trazer-lhes uma inesperada confirmação. Não obstante, ouçamos o costumado epifonema final do alumiado crítico: "A epístola aos romanos varre, pois, a hipótese de ter estabelecido S. Pedro, até o ano 58, sua sede episcopal em Roma", p. 265.
- Outras epístolas escreveu de Roma o apóstolo das gentes. Nenhuma razão há que prove dever-se nelas fazer menção da presença de S. Pedro. Qualquer argumento que deste silêncio se pretenda inferir contra o fato histórico já demonstrado com provas positivas é radicalmente viciado na sua origem. Queixa-se por exemplo S. Paulo, na segunda epístola a Timóteo, que ninguém o assistiu na sua defesa? (2 Tim IV, 7). Apressa-se logo o protestante de concluir que S. Pedro não podendo ser envolvido nesta queixa "não podia estar em Roma neste tempo", p.269. Mas quem não vê que a recriminação de S. Paulo não cai senão sobre os cristãos que, tendo algum valimento na corte do império, o podiam auxiliar e de modo algum atinge o pobre pescador da Galileia  judeu como Paulo, e, como ele, sob o peso das mesmas suspeitas e das mesmas perseguições?







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Conclusão. - É tempo de rematar esta longa dissertação histórica. Da crítica imparcial a que submetemos, um por um, os argumentos da tese católica e os da sua antítese protestante, chegamos ao seguinte resultado: Pela presença de Pedro em Roma militam todos os documentos positivos sem exceção de um só: - testemunhos fidedignos de inúmeros escritores antigos, que, em cadeia ininterrupta, remontam do século XIV às origens do cristianismo, ao próprio S. Pedro; monumentos arqueológicos que, em admirável consonância com os documentos escritos atestam irrefragavelmente a verdade do mesmo fato; silêncio de todas as demais igrejas, nenhuma das quais reclama para si a honra de possuir o corpo do príncipe dos apóstolos, ou de haver sido teatro do seu martírio. Contra esta inexpugnável bateria de documentos, que podem alegar os protestantes? Nem um só, notai bem, nem um só documento antigo que negue a realidade do fato. E quão fácil fora aos antigos escritores, próximos ao acontecimento narrado, de posse de arquivos e obras hoje perdidas, refutar um invenção de tantas e tão graves consequências para toda a história e constituição hierárquica da Igreja!

Batidos no terreno das provas positivas, abrigam-se os adversários à sombra de argumentos negativos. S. Pedro não estevem em Roma porque não o dizem S. Lucas e S. Paulo. Argumento ex silêncio cuja inanidade não há crítica que não reconheça. O Sr. CARLOS PEREIRA, escreveu: "é evidentemente fatal à teologia infalibista (sic) este silêncio sistemático da história da igreja primitiva",144 p.280. Agora que o leitor tem presentes todas as peças do processo, perguntamos de que parte está o silêncio sistemático da história. Há testemunhas que afirmem a estada de S. Pedro em Roma? Inúmeras, autênticas, irrecusáveis. Há algum escritor que negue a estada do príncipe dos apóstolos na cidade eterna? Nem um só.
Que pensar agora desta "alta crítica moderna" para o qual "Pedro e Paulo como fundadores de Roma são um mito semelhante ao de Rômulo e Remo como fundadores da cidade"?, p. 265. - É a negação mais radical do senso crítico. Que semelhança entre um

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144. Poucas páginas antes confessara CARLOS PEREIRA "que S. Pedro e S. Paulo são pela unânime tradição dos primeiros séculos proclamados os fundadores dessa igreja (Roma)", p. 265. A contradição é flagrante. E que significa "esta alta crítica moderna" que constrói a história a priori independetemente de todos os testemunhos próximos aos fatos? Que telescópio de alcance portentoso inventou a ciência protestante capaz de varar vinte séculos e descobrir um fato histórico sem o auxílio de documentos e testemunhos?






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fato público, ilustre, ocorrido em plena luz da história, atestado por testemunhas contemporâneas ou pouco posteriores, gravado indelevelmente em monumentos de reconhecida autenticidade, e do qual dependem inúmeros fatos dos séculos posteriores, e uma lenda que se perde na noite dos tempos, registrada por escritores que floresceram muito séculos mais tarde, indemonstrável com documentos ou monumentos dignos de fé e que traz em si própria o cunho da mais clara inverossimilhança?
Para honra, porém da crítica protestante manda a lealdade confessar que os seus maiores historiadores, antigos e modernos, não pefilam a negação partidária dos escritores de libelos contra a Igreja Católica. Entre os antigos lembramos os nomes de CAVE PEARSON, HUGO GRÓCIO, NEWTON, BLONDEL, MOSHEM E PFAFF. Entre os mais recentes: HASE, HUNDHAUSEN, NEANDER, LIGHTFOOT, CIESELER e HARNACK; Citarei apenas o testemumho deste dois últimos. "Na idade média negaram que S. Pedro houvesse estado em Roma os Valdenses, Marsílio Patavio, Miguel Cesenas, etc. Seguiram-nos Marcus Flaccius, Claudius Salmasius e Fred Spnheim, todos evidentemente levados por espírito de partidarismo religioso.145 Não é diferente a linguagem do célebre reitor da universidade de Berlim: " O martírio de Pedro em Roma, foi, tempos atrás, combatido por preconceitos tendenciosos de protestantes e críticos. Em ambos os casos o erro promoveu o conhecimento de importantes verdades históricas e com isso prestou o seu serviço. Mas, que fosse erro é claro par qualquer estudioso que não queira fechar os olhos.Todo o aparato crítico com que Bauer impugnou a tradição é hoje justamente tido por de nenhum valor".
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145. GIESELER, lehrbuch der Kerchengeschichte, Bonn 1844, t. 1(4), p. 102.

146. HARNECE, Die Chronologie der altchristlichen Litteratur, Leipazig 1897, I, p. 244. Mesma observação em FILIPE SCHAFF, tão de casa ao nosso pastor. O professor de teologia na Pensilvânia atribui a negação desta fato evidente "parte a Zelo polêmico contra o Papado, parte a cepticismo histórico". Geschichte der Apololischen Kerche (2), Leipzig 1854, p. 366-7. Ao lado dos protestantes, ouça-se um notável crédito, historiador e arquólogo católico, H. GRISAR: "Se tutto non inganna, l'epoca di tali impuganzioni della tradizione romana é una volta per sempre finita. Fin dal secolo XVI quando fece capolino per la prima volta la regazione, essa porte troppo chiaro il sigillo della prevenzione teologica e dell'interesse de parte. Per una simile polemica non esiste oggi una base scientifica e non si há neppure la necessaria voglia di polemizzare". H. GRISAR, Roma alia fine dei mondo antico (2), Trad. ital. Roma 1908, p. 235. E. IM. D'HERBIGNY : "Só por ódio fanático contra a Igreja católica ainda hoje alguns ateus e propagandistas acatólicos difundem entre o vulgo a negação [da estada de S.; Pedro em Roma]: ou ignoram pasmosamente a verdade histórica, ou conscientemente a impugnam". De Ecclesia, Paris, Beauchesne, 1921, t. II (2).







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Como se vê, ainda nas altas rodas intelectuais do protestantismo - fora, já se vê, de GREENWOOD, autor de uma "obra prodigiosa" - a "alta crítica moderna" não passa de velho preconceito sectário de antigalha de museu, útil só para revelar à gente instruída psicologia da polêmica protestante.147
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147. Bibliografia. CATALDO CAPRARA, La venuta di S. Pietro en Roma, Roma 1872; DE SMEDT, Dissertationes selectae in primam aetatem hitoriae ecclesiasticae, GANDAVI 1876, pp.1-49; C. MACCHI, La critica storica e Porigine della Chiesa romana, PRATO, GIACCHETTI, 1903; PAULO MONCEAUS, L'apostolat de Saint-Pierre à Rome, na Revue d'histoire religieuse, 1910,pp. 2316-240; SDANGUINETTI, De sede Romana B. Preti, Commentarius historico-criticus, Romae 1867. Consultem-se também os grandes tratados de Ecclesia que citaremos no fim do livro I.











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