domingo, 22 de agosto de 2010

O PROTESTANTISMO E A CORRUPÇÃO DOS COSTUMES - IRC/LCP III-III-2

Não seria, pois, difícil ao filósofo antever nas doutrinas imorais do protestantismo o germe desgraçadamente fecundo de uma abominável corrupção de costumes. A história dá a estas previsões teóricas a mais sinistra confirmação experimental. CARLOS PEREIRA, sem se dar ao trabalho de provar as suas asserções, afirma aos que lhe quiserem piamente crer que "a reforma pôs um dique a esses desregramentos e o puritanismo protestante salvou o mundo da completa dissolução dos costumes, dando aos homens uma têmpera moral", pp. 121-2. Francamente, não experimento em mim este devoto sentimento de credulidade nas palavras do mestre gramático. Prefiro abrir a história, e recolher-lhe o testemunho insuspeito. E que depõe a história? Só lhe ouço uma voz para acusar, nos países em que prevaleceu a pregação do "novo evangelho", um extravasamento de imoralidade, que não encontra semelhante senão nas eras mais abominosas da ruína de Sodoma, das orgias de Babilônia ou da decomposição do paganismo agonizante.



A MORALIDADE NOS COSTUMES DA REFORMA - Pg. 390




LIVRO III


A IGREJA, A REFORMA E A CIVILIZAÇÃO

Capítulo III

A IGREJA, A REFORMA E MORAL

§ 2. - A moralidade nos costumes da Reforma.

SUMÁRIO - Decadência geral dos costumes. - Particularizando: abolição do celibato; divórcio; poligamia; egoísmo.

Dos desvios da inteligência sempre se ressente o coração. Não há no domínio especulativo doutrina errônea que, cedo ou tarde, pela lógica imanente das coisas, não tenha sua repercussão na vida moral dos povos e dos indivíduos. "illuminationis puritas et arbitrii libertas, escreveu BACON, simul inceperunt, simul corruerunt. Neque datur in universitate rerum tam intima sympatia quam illa veri et boni". E o critério evangélico dos frutos que abonam a qualidade da árvore recebeu sempre, no desenvolvimento paralelo do erro e do vício, a sua mais cabal justificação.


Não seria, pois, difícil ao filósofo antever nas doutrinas imorais do protestantismo o germe desgraçadamente fecundo de uma abominável corrupção de costumes. A história dá a estas previsões teóricas a mais sinistra confirmação experimental. CARLOS PEREIRA, sem se dar ao trabalho de provar as suas asserções, afirma aos que lhe quiserem piamente crer que "a reforma pôs um dique a esses desregramentos e o puritanismo protestante salvou o mundo da completa dissolução dos costumes, dando aos homens uma têmpera moral", pp. 121-2. Francamente, não experimento em mim este devoto sentimento de credulidade nas palavras do mestre gramático. Prefiro abrir a história, e recolher-lhe o testemunho insuspeito. E que depõe a história? Só lhe ouço uma voz para acusar, nos países em que prevaleceu a pregação do "novo evangelho", um extravasamento de imoralidade, que não encontra semelhante senão nas eras mais abominosas da ruína de Sodoma, das orgias de Babilônia ou da decomposição do paganismo agonizante.


É o que pretendo agora provar, documentos à vista. a instrução do processo só admitirei como testemunhas, os próprios protestantes contemporâneos e de preferência os país da Reforma.


A LUTERO, como é de justiça, o primeiro lugar. Em 1529: "Os evangélicos são 7 vezes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio [o papado] e vieram sete piores. Príncipes, senhores, nobres, burgueses e agricultores perderam de todo o temor de Deus".31

A MORALIDADE NOS COSTUMES DA REFORMA  - Pg. 391


Qual a causa deste desencadeamento do mal? A nova doutrina. "Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficamos muito mais remissos e frios na prática do bem. É admirável (dictu mirum) com que fervor nos dávamos às boas obras outrora, quando por meio delas nos esforçávamos por alcançar a justificação. Cada qual porfiava em vencer os outros em piedade e honestidade. E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de coisas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem".32 O heresiarca leva a sinceridade ao ponto de confessar os efeitos dissolventes da Reforma sobre a própria consciência. Num sermão pregado em 1532: "Quanto a mim confesso - e muito outros poderiam sem dúvida fazer igual confissão - que sou desleixado assim na disciplina como no zelo, sou muito mais negligente agora que sob o papado; ninguém tem agora pelo Evangelho o ardor que se via outrora"33 "Quanto mais certos estamos da liberdade que nos conquistou Cristo, tanto mais frios e negligentes somos em pregar, orar, fazer o bem e sofrer o mal".34

A medida que o "novo evangelho" se propagava, avultava e engrossava também a onda da imoralidade. Com o tempo as expressões do Reformador carregam-se de tintas cada vez mais escuras. Em 1542 escrevia a AMSDORF: "É tanto o desprezo pela palavra de Deus, tão desmesurado o crescer dos vícios, da avareza, da usura, da licença, dos ódios, das perfídias, das invejas, da soberba, da impiedade e das blasfêmias que não é provável que Deus use ainda de misericórdia com a Alemanha".35 No ano seguinte, ao mesmo amigo: "Tal era o mundo antes a destruição de Jerusalém, antes da devastação de Roma, antes, antes da perda da Grécia e da Hungria, tal será e é, antes da ruína da Alemanha"36 Um ano antes de sua morte, em 1545, em carta a GASPAR BETER: "O mundo está cheio de Satanás e de homens satânicos" 37

Wittemberga, berço do puro Evangelho e residência habitual de LUTERO, tornara-se outrossim um foco de abominável corrupção.




31.. Weimar, XXVIII, 763.

32. Weimar, XXVII, 443.

33. Erl., XVIII(2), 353


34. Weimar, XI, 2 Abt. 61.

35. DE WETTE, V, 462.

36. DE WETTE, V, 600-601.

37. DE WETTE, V, 721.


A MORALIDADE NOS COSTUMES DA REFORMA  - Pg. 392


Poucos anos depois de iniciada a "reforma", já o heresiarca se queixava num sermão: "Que fazer convosco, Wittemberguenses? Já não vos pregarei o reino de Cristo que não quereis receber. Sois ladrões, rapaces e cruéis... brutos ingratos. Arrependo-me de vos haver libertado da tirania dos papistas. Vós, ingratissimae Bestiae, sois indignos do tesouro do Evangelho".38 Com a veemência de semelhantes impropérios, os costumes não melhoraram. "Vivemos, ou melhor, morremos nesta Sodoma, nesta Babilônia",39 escrevia em 1545 ao Príncipe de Anhalt, JORGE: e poucos meses depois à sua CATARINA: "Fora, fora desta Sodoma".40

O incêndio, que assim crescia de dia para dia com imensa ruína das almas, não podia deixar, de quando em quando, de remorder-lhe a consciência atordoada pelo orgulho. "Vejo estes males e os deploro. Muitas vezes pensei se não teria sido melhor conservar o Papado, do que ver tamanha perturbação. Melhor é, porém arrancar alguns das fauces do demônio do que perecerem todos".41 Nestes momentos de angústia, para tranquilizar os sobressaltos da consciência, acolhe-se à convicção fantástica da sua missão divina. "A ideia que é divina a minha missão é-me de grande conforto. Com ela muitas vezes me defendo do pensamento satânico de que o Evangelho é a causa dos grandes escândalos que presenciamos. Confesso, porém, que se Deus não me fechara os olhos, se houvera previsto todos esses males, nunca certamente teria começado a pregar o Evangelho".42



"Quem de nós, dizia ele em 1538, se teria abalançado a pregar, se pudera prever que tanta desgraça, tanto escândalo, tanto crime, tanta ingratidão e malvadez seriam o resultado da nossa pregação? Agora, uma vez que chegamos a este estado, soframos-lhe as consequências".43

Último pensamento, enfim, que o consola em meio do dilúvio de males por ele desencadeado é a iminente destruição universal. A aniquilação do mundo, ele a invoca com esperança como supremo remédio.

38. Weimar, XXVII, 408-411.



39. DE WETTE, V, 722.

40. DE WETTE, V, 753. Do estado moral de Wittemberga já em 1527 escrevia MELANCHTHON a Justo Jonas: "Quando vieres a Wittemberga verás como tudo o que havia de bom ameaça ruína, que ódios dividem os homens, que desprezo de toda a honestidade, que ignorância nos que governam as igrejas, e quão 'βέβηλοι'(profanos) são os 'άρχοντες'.(governantes) Corpus Reformatorum, I, 888. Em 1524, ICRELSAMER escrevia a Lutero: "Quanto mais se aproxima alguém de Wittemberga, tanto pior cristão se vai tornando".

41. Weimar, XX, 674.

42. Walch, VI, 920 (DOLLINGER, Die Reformation, 2(2), 304)

43. Walch, VIII, 564 (DOLLINGER, Die Reformation, 1(2), 305)


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"Desejo sair, com todos os meus, deste mundo satânico. Anelo pelo supremo dia que porá termo nos furores de Satã e dos seus".44 Ao mesmo amigo J. PROBST escrevera dois anos antes, em 1542: "O mundo ameaça ruína; disto tenha certeza: tal é o furor de Satanás, tal o embrutecimento geral. Só me resta como consolo a iminência do dia derradeiro... a Alemanha foi e nunca voltará a ser o que foi".45 Já nos parece ouvir nestas expressões coloridas ainda de tintas cristãs, o grito pessimista de HERTMANN apelando para o "suicídio cósmico" como único termo aos males irremediáveis da vida.


Em MELANCHTHN, discípulo predileto de LUTERO, a mesma persuasão, sugerida pelos mesmos motivos. "Cresce de dia para dia o desprezo da religião, não só entre o povo a quem se pode perdoar, mas entre os sábios que ou se fazem epicureus ou acadêmicos. A corrupção dos homens, a tristeza dos tempos e a insânia dos príncipes bem mostram ωδιυiν ε τόν κόσμων e que é iminente o advento de Cristo".46

Depois dos mestres os discípulos.

ANDRÉ MUSKULOS, um dos mais fogosos campeões do luteranismo, escrevia em 1561: "Chegamos a tal extremo que já não há, entre nós quem não confesse claramente que nunca, desde que o mundo é mundo, houve tanta corrupção na juventude. Não é possível pior... Se o mundo durar ainda algum tempo e se os nossos filhos, já afogados na desordem e na dissolução, tiverem um dia descendentes que nos sobrelevem no vício e na malícia, será preciso que os homens se transformem em verdadeiros demônios, porque realmente não vejo como, conservando caráter humano, cheguem a ser piores que nós".47


44. DE WETTE, V, 703.

45. DE WETTE, V, 451. A idéia do fim iminente do mundo tornou-se nos últimos anos uma verdadeira obsessão para o heresiarca, que ainda uma vez arriscou nela os seus créditos de profeta. O mundo não duraria 100, nem mesmo 50! A corrupção era tão geral e tão profunda que já não podia crescer e só o juízo final lhe poderia pôr termo. Sobre as idéias de LUTERO acerca do fim próximo do mundo, cfr.\Luther, III, 202-211.

46. Corpus Reformatoum, III, 895. O trecho citado é extraído de uma carta datada de 1540. Dez anos mais tarde, escrevendo a CAMERÁRIO, carrega ainda mais as cores: "Non est jam tantum όψον κακήγορία', ut Pindarus inquit, sede rabies qualis nulla aetate fuit, cujus praecipua causa est quod homines barbari et jam assuefacti ad legum et disciplinae conteptum et odium mettunt fraenari licentiam; sed haec sunt fatalia mala postremae aetatis". Corp. Reformat. VII, 580. Documentos como esses poderiam colher-se às dezenas nas obras assim de LUTERO como de MELACHTHON.

47. A. MUSKULUS, Von der Teufs Tyrannei, no Theatrum diaboloru f. 160, Cfr. etiam f. 128, 137 b.


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Pouco mais tarde, BELZIUS que, com o seu divórcio beneficiara também da emancipação geral das consciências, assim pinta os os costumes do tempo: "Quereis ver reunida nos mesmo lugar uma população inteira de salvagens e ímpios, entre os quais toda a espécie de iniquidade é prática cotidiana e, por assim dizer, de moda? Ide às nossas cidades luteranas, onde se acham os pregadores mais estimados e onde o santo Evangelho é pregado com mais zelo: aí a encontrareis... Dos púlpitos já se brada que a boas obras são não só desnecessárias senão ainda nocivas à salvação das nossas almas".48


Comparando os novos costumes com os antigos, escreve PERKHEIMER em 1527: "Esperávamos que a malvadeza romana bem como os maus costumes dos monges e padres se devessem corrigir; mas, quando vemos, as coisas foram de tal jeito piorando, que em confronto dos velhacos evangélicos os antigos seriam santos".49 Um franciscano apóstata EBERLIN DE GÜNZBURG, confessa igualmente: "somos duas vezes piores que os papistas, antes piores que Tiro, Sidônia e Sodoma".50


A doutrina da inutildade das boas obrtas era o grande agente corruptor. À sua sombra organizava-se a licença autorizada. Afirma-o, entre muitos outros, DIOGO ANDRÉ com a autoridade de quem, como inspetor, empreendeu inúmeras viagens e recolheu muitas observações, publicadas em 1568: "A fim de que saiba o mundo inteiro que não são os papistas se não põem a sua confiança nas boas obras, os nossos luteranos diligenciam por não praticar nenhuma. Em vez de jejuar, comem e bebem noite e dia; em vez de socorrer os pobres, acabam de esbulhá-los; em vez de orar, blasfemam e desonram a Jesus Cristo, por modos que excedem a ousadia dos próprio turcos. finalmente, em vez da humildade cristã, aninham no coração o orgulho e o amor do erro. Tais são os costumes dos nossos evangélicos".51


Insistamos um pouco mais em mostrar como desmando geral dos costumes se apresentava evidentemente como uma consequência das doutrinas e da pregação da Reforma. O reitor protestante

48. BELZIUS, Von Jmmer und Elenden menschl. Lebens, Kurzer Unterricht aus dem 90 Psalm. Lipsiae, 1575, C. 6, D. 6.

49 Ap. HERMANN, Documenta Litteraria, Aldorfii, 1758, p. 59.

50. B. RIGGENBACH, Ja. Eberlin von Günzburg, 1876, p. 242. Se assim é, por onfissão dos próprios chefes da Reforma, quanto mais se esforçam os modernos protestantes por pintar com tintas carregadas a época anterior a LUTERO, tanto mais negro deverá aparecer o luteranismo.

51. JACOB ANDREAS Erinnerung nach dem auf er Planeten gestelit,Tübingen, 1568.




A IGREJA, A REFORMA E A CIVILIZAÇÃO - Pg. 395


I. RIVIUS escreve em 1547: "Se és adúltero ou libertino, dizem os pregadores, crê simplesmente e serás santo. Nem temas a lei, porquanto Cristo a cumpriu e satisfez pelo homem... Semelhantes discursos levam à vida ímpia".52 Em 1525 JORGE, duque de Saxônia, escrevia ao corifeu reformador: "Quando se viu maior número de adultérios como depois que escreveste: se uma mulher é estéril, una-se a outro e os filhos sejam alimentados pelo primeiro marido. E outro tanto façam os homens?"53 E como não haveria de ser assim quando se ouvia LUTERO ensinando de 1523: "Deus só te obriga a crer e a confessar. Em todas as outras coisas te deixa livre e senhor de fazer o que quiseres, sem perigo algum de consciência; antes é certo que, de si, ele não se importa, ainda mesmo se deixasses tua mulher, fugisses do teu senhor e não fosses fiel a vínculo algum. E que se lhe dá, se fazes ou deixas de fazer semelhantes coisas?"54

Fechemos esta primeira série de testemunhas acerca da corrupção geral desencadeada pelo protestantismo com o depoimento de PEDRO ARBITER, interessante sobretudo no ponto de vista da psicologia dos primeiros reformadores: "Porque permanecem alguns fiéis ao papismo e outros a ele voltam depois de o haver renunciado, senão porque de tal modo os cega o espírito das trevas, que, quer entre nós quer entre eles, consideram como nonada o que deveriam estimar como coisa principal e atribuem, pelo contrário, grandíssima importância ao que não na tem nenhuma? Porquanto, que vale todo o bem do mundo, que é a perfeitação, a sabedoria, a autoridade, a ordem, a concórdia e as outras virtudes que admiramos entre s papistas, se a doutrina à má e para a salvação só a doutrina é indipensável?... Permiti que vos dê um conselho? Para julgar entre a Igreja papista e a nossa, atendei à doutrina e não às aparências".55 Ironia das coisas! A depravação dos costumes da Igreja Romana fora o pretexto da revolta religiosa que se apresentou ao povo sob o pretexto da revolta religiosa que se apresentou ao povo sob o especioso nome de Reforma. Ora, diante da corrupção avassaladora que babilonizava os povos, diante dos desmandos protestantes, a cuja comparação os costumes católicos eram confessadamente a perfeição,  a 
ordem, a sabedoria, e outras virtudes admiráveis, que fazem os paladinos da regeneração do cristianismo? Em lugar de arrepiarem carreira, proclamam a dissolução moral uma bagatela para desprezar-se e apelam cinicamente para a doutrina, - para esta doutrina, que abalando os princípios, negando a liberdade, inculcando o pecca fortiter, assegurando a certeza da salvação sem virtudes, a inamissibilidade da graça, emancipara as consciências da lei e da responsabilidade, abrira a porta a todos os desmandos, soltara o freio a todos os apetites brutais, estimulara todas as paixões, divinizara o pecado! Eis a obra prima do fanatismo!


52. I. RIVIUS, De Stultitia mortalium, 1557, I. 1,p. 50 s.

53. - ENDERS, V. 189; ed Jena, 1556, III, 211.

54. Weimar, XII, 131 ss; Cabe aqui a observação que em 1565 fazia JOANNES JACOBUS na obra sobre a sua conversão: "entre os católicos os pecados atribuem-se às pessoas, entre o luteranos às doutrinas e às pessoas". RÄSS, Die Convertiten seit der Reformation, Freiburg . B., 1866, I. 522.

55. P. ARBITER, Diechristl. Busselehre mil der papistischen verglichen, Magdeburg. F. 2,3.




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Mas não paremos nas linhas gerais desta quadro moral digno dos tempos do paganismo. Examinemos-lhe por miúdo as partilaridades vergonhosas. Só contrafeito é que revolvemos esta vermineira em fermentaçlão Mas como ao médico, també ao h8istoriador e no moralista incumbe, por vezes, este penoso dever. A verdade merece que lhe sacrefiquemos os melindres de uma delicadeza descabida.


O catolicismo plantara sobre os restos putrefatos do paganismo uma flor desconhecida da humanidade: a pureza. Fecundados pela seiva cristã, medraram os lírios no sacerdócio, no matrimônio, na juventude, em todas as idades, em todas as condições, em todas as camadas da sociedade. O "sentido depravado", de que nos fala LACORDAIRE,56 continuou sempre a exercer sobre a argila humana a tirania das suas seduções, mas a Igreja não cedeu nunca, não transigiu nunca com a fraqueza da carne. O ideal de pureza, conservou-o sempre elevado a iluminar com as suas luzes as trevas das eras barbáricas e a atrair com os seus encantos as almas nobres e sedentas de amor e sacrifício. À sua sombra reuniu-se em todos os tempos um manípulo de escol: exemplo vivo aos contemporâneos dos heroísmos da abnegação, espetáculo de paraíso a exercer sobre as multidões da terra a influência saneadora da virtude celeste em ação.


O primeiro cuidado da Reforma foi destruir este jardim do céu. Os seus cefes, cansados do celibato, procuraram no matrimônio um remédio aos apetites que não não sentiam força de refrear. E, 1522, ZWINGLIO, em seu nome e no de alguns outros saerdotes, apresentava aos magistrados uma súpllica em que, entre outras coisas edificantes. dizia: "Bem sabeis a vida vergonhosamente nefanda que até aqui (falamos só de nós) infelizmente temos levado com mulheres

56. Ler toda a conferência. 23.



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com as quais temos dado muitos escândalos".57

Ao mau exemplo estava reservada a mais alta consagração. LUTERO, que já se havia dado a todos os excessos da embriaguez e da crápula, pôs o remate à sua vida licenciosa, profanando criminosamente com uma ex-freira, ele, ex-frade, um corpo duplamente sagrado virgem, pela unção sacerdotal e pelos juramentos da vida religiosa.



Quando os pastores titulados são assim, não é difícil conjecturar o que será a grei comum dos anônimos. Os sacerdotes escandalosos bateram as palmas ao ouvir a "boa nova" do evangelho de Wittemberga; os mosteiros de religiosos, esquecidos da dignidade da sua vocação, despovoaram-se. A grande tragédia da reforma terminou na comédia de um casamento universal.58


Não se pode tocar impunemente na grande jerarquia das virtudes cristãs. À incontinência no celibato abriu LUTERO a porta do matrimônio; à incontinência no matrimônio abriu a porta do divórcio. Quando esse apóstolo fogoso da dissolução bradou à Europa que o matrimônio não era sacramento, vibrou um golpe mortal à família cristã. Reduzido a simples contrato civil, o ato augusto que une os esposos, santificando-os, foi despojado de toda a sua dignidade.59 Renasceu o sensualismo e a família retrocedeu às eras pagãs.


Ouçamos FR. STAPHYLUS que escrevia em 1562: "Enquanto o Matrimonio foi considerado como sacramento, o pudor e a honestidade na vida conjugal eram estimados e amados, mas quando se leu nos livros de Lutero que o estado conjugal é uma invenção dos homens... logo os seus conselhos foram de tal modo atuados que relativamente ao matrimônio há quase mais honestidade e dignidade na Turquia que entre os nossos evangélicos da Germânia".60

57. ZWINGLH, Werke, I, 225.

58. A expressão é de ERASMO: "Parece que a Reforma se resolve em desfradar alguns monges e casar alguns padres; e esta grande tragédia termina num desfecho cômico, porque tudo acaba num casamento como nas comédias".

59. Para CALVINO, casar-se é coisa tão sagrada como "cultivar os campos, construir casas, fazer sapatos ou tosar carneiros". Inst. Relig. Christ., '. IV, c. 19, n. 34, Opera, II,1089.

60. FR. STPHYLUS, Nachdruck zu Verfechtung des Buchs vom rechien wahren Verstandt des guettichen Worts, etc., Ingolstadt, 15623, fol. 202 b. Com a degeneração do matrimônio a mulher caiu no despreso e na ignomínia. Mais que nenhum outro, para isso contribuiu LUTERO com uma indignidade sem nome. Para o reformador a mulher não passa de "animal estúpido" (Weimar, XV, 420), simples instrumento das satisfações sensuais do homem. Na vilania de sua linguagem, chega a cumpará-la a uma vaca prenhe: "também as mulheres se cansam e finalmente arrebentam durante a getação; não importa, deixá-las arrebentar, são para isso". Erl. XX, 84. Façamos ponto aqui. Repugna-nos transcrever citações como estas.




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Também aqui um exemplo do alto, devia inaugurar ruidosamente na cristandade o divórcio, sancionado pelas autoridades religiosas da Reforma.


Depois de 19 anos de união conjugal com CATARINA DE ARAGÃO, obcecado por uma paixão ilegítima, pediu HENRIQUE VIII a dissolução do matrimônio sob pretexto de nulidade. Negou-lhe a Igreja que à complacência de frontes coroadas nunca sacrificou um princípio moral. HENRIQUE rompe com a Sé Apostólica; a TOMÁS MOORE, que, com serena hombridade, lhe repetia o non licet do Batista, manda, novo Herodes, decepar a cabeça; arvora-se em reformador e une-se com ANA BOLEYN, que manda decapitar quatro meses depois. No dia da execução, o rei vestiu-se de branco e na manhã seguinte esposa JOANA SEYMOUR. Falecida Seymour a breve trecho, une-se a ANA DE CLEVES, para despedi-la logo, porque lhe não agradava. Agrada-lhe, porém, CATARINA HOWARD, mas por pouco; seis meses apenas volvidos, manda cortar-lhe a cabeça por adultério. Finalmente casou com CATARINA PAAR, que sobreviveu ao tirano, e duas semanas depois da sua morte, já havia contraído novas núpcias.61 é mister retroceder nos anos de decrepitude do paganismo e às mostruosidades impudicas e sanguinárias de Calígula ou de Tibério, para encontrar espetáculo semelhante. E foi neste charco de lodo e sangue que se embalou o berço da Reforma na Inglaterra!


Divórcio é uma poligamia sucessiva. Quem o autorizou, por que havia de recuar diante da poligamia simultânea? Por que não havia de pregar para o homem "os costumes fanerogamos", que mais tarde reclará FOURIER? Foi quanto fez o protestantísmo. Os anabatistas logo de princípio professaram e praticaram, sem pejo, a mais desavergonhada poligamia. JOÃO DE LEIDA, um dos seus chefes contava nada menos que 14 mulheres. Direis: extremos de uma facção que se atirou logo à nimiedade dos mais escandalosos excessos de que se não deve responsabililzar toda a Reforma. Não, engano. O ponto foi estudado., discutido, à luz das Escrituras já se vê, e sancionado pelos grandes mestres da seita.


Num comentário sobre o Gênese, afirma Lutero que "não é proibido ao homem ter mais de uma mulher".; Havendo CARLOSTADT autorizado uma bigamia, o chefe, consultyado, respondia a 13 de janeiro de 1524: "Confesso chãmente não poder proibir que alguém tenha muitas mulheres. À Escritura não repugna; não quisera, porém, ser o primeiro a introduzir este exemplo ente cristãos".62

61. Cfr. DIXON (protestante), History of the church of England from the azbolition of he roman jurisdiction, I, 384; II, 327; III, 9.
62. DE WETTE, II459. Em 1527: "Não é proibido que um homem possa ter mais de uma mulher; eu ainda hoje não o poderia impedir, mas não o quero aconselhar", Weimar, XXIV,305. O mesmo repete em 1528, Weimar XXVI, 523, e em 1539. DE WETTE, VI, 243. No de Captivitate Babyloniae Weimar, XV, 558) aconselha desassobradamente a poligamia e a poliandria.

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Um episódio tirou-o logo desta hesitação e ofereceu-lhe a oportunidade de uma aplicação solene de sua edificante teoria.


FILIPE, landgrave de Hesse, não estava satisfeito com uma só esposa; queria outra de sobrassalente para as frequentes viagens fora de seus domínios. Uma segundo consorte volante, além de muitas outras vantagens, representava a economia de enorme dispêndio no deslocmento da corte. Mas, evangélico de consciência delicada, queria estar em paz com Deus e a sua igreja. Recorre, para isso, aos representantes autorizados do novo cristianismo. instrução dada a BUCERO, o príncipe luterano declarava "que não queria por mais tempo fica nos laços do demônio, mas que, para se libertar deles, não podia nem queria tomar outra via senão a que indiava a da bigamia), e, por isso, pedia a LUTERO, a MELANCHTHON e ao -próprio BUCERO que lhe dessem uma declaração por escrito, autorizando a segui-la". ASssim, acrescentava ele "se poderia viver mais alegremente, morrer pela causa do Evnagelho, e empreender-lhe a defesa" contra os adversários. Uma vez obtida a almejada licença, "far-lhes-ia tudo o que razoavelmente lhes pedissem como os bens dos mosteiros ou outras coisas semelhantes". Em caso de recusa, ameaçava-lhes politicamente de recorrer ao imperador.


O landgrave sabia tocar todas as teclas sensíveis aos reformadores: o receio de um apelo ao imperador (era CARLOS V), a perspectiva de novos bens eclesiásticos, a promessa de pôr as armas ao serviço do evangelho contra os papistas. Quem, por um pontinho insignificante de moral cristã, haveria de resistir à bateria de tantas seduções? Reuniu-se o conselho, folheou-se a Escritura... e tudo se pôde legitimar. "Em consciência tranquila podia landgrave esposar segunda mulher, se a isto estivesse decididamente resolvido, contanto que o caso se conservasse secreto". O crime praticado às ocultas, deixava de o ser. De fato, o segundo matrimônio foi celebrado em forma. O príncipe declarou tomar segundo esposa "não por leviandade ou curiosidade", senão por "necessidades inevitáveis do corpo e da consciência, que sua alteza havia explicado a muitos doutos








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prudentes, cristãos e devotos pregadores, os quais lhe haviam aconselhado de assim tranquilizar a alma e pôr em paz o espírito", escrupuloso e delicado. Com efeito, o precioso documento de autorização havia sido assinado por LUTERO, MELANCHTHON, BUCERO e cinco outros evangélicos teólogos de Wittemberga.63 Custa crer, mas a realidade histórica entra-nos pelos olhos com a força convincente de uma evidência irrecusável.



O exemplo do landgrave não ficou sem imitadores nas cortes protestantes. JORGE IV (m. 1694), príncipe eleitor da Saxônia, vivendo a primeira mulher, casou-se publicamente com uma concubina, alegando autoridade da Escritura e os exemplos de concessão semelante outorgada "pela nossa igreja". FREDERICO GUILHERME II, que já tinha dado a mão direita a raínha, deu a esquerda a Júlia de Voss. O Rev. ZOELLNER pregador da corte, a 235 de maio de 1787 abençoou o novo matrimônio na capela do castelo de Charlottemburgo. EBERARDO LUÍS (M. 1739), daque de Würtemberg, CALOS LUÍS (m. 1680), príncipe eleitor palatino, FEDERICO IV (m. 1730) rei da Dinamarca, com público matrimônio, deuplicaram solenemente as respectivas esposas.


A abolição do celibato, a permissão do divórcio, a sanção oficial da poligamia, pregadas, praticadas, inculcadas, autroizadas pelo chefes reformistas, fácil é de ver que a repercussão corruptora teriam na multidões iluminadas pela luz do novo e consolador evangelho. A dissolução extravasou como uma cheia imunda e ameaçou afundar a sociedade num inundação de lama. Aos documentos.


Em 1552 escrevia STAUPITZ a LUTERO que a sua doutrina só er abrçados pelos que "lupanaria colunt".64 "Sob este reino do Evangelho, dizia WIZEL, vêem-se homens e mulheres que no mesmo dia da morte do próprio consorte já se acupam em lhe dar sucessor. Há quem creia de boa fé ser consoante ao espírito do evangelho não ficar um instante sem mulher e tema pecar conservando-se alguns meses em estado de viuvez".65 "Desde que Lutero, é CZECANOVIUS que fala, arvorou o estandasrte da incontinência, todos os que comem, bebem e sentem o aguilhão das paixões animais, correram sem pejo a alistar-se sob a nova bandeira. Os jovens não coram de entregar-se

63. Quem não dispuser de ouros livros a mão poderá consultar os documentos autêncos deste edificantíssimo episódio em BOSSUET, Histoire des variations, em anexo ao 1. VI, ou, melhor ainda em JANSSEN, Geschichte des deutschen Volkes, III (17-18), pp. 450-454, onde vêm indicadas as fontes.

64.DE WETTE, II, 215.

65 WIZEL, Von den Tdien und ihrem Begraebnisse, Leipzig, 1536, G. a b.




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abertamente à dissoluão... e as jovens desonradas sabem, como os jovens, entrincheirar-se nos seus vícios com as leis de Lutero"66 imoralidade subiu a tal ponto que no dizer de OSSIANDRO (137) "coisa monstruosa! A inocência e a honra das mulheres correm justamente maiores perigos entre os que mais interesse têm em conservá-las, entre os próprios parentes".67


Aos lamentos individuais vêm associar-se as medidas de ordem pública.






Em Norimberga vemos que nos anos de 1524, 1525 e 1527 o conselho não pode dar vazão aos processos de bigamia que se amontovam de um dia para outro; por este motivo, dirige-se ao doutos para saber que providências cumpria adotar a fim de obviar as graves consequências da nova doutrina sobre o matrimônio.68


Em Vürtemberg, no ano de 1534, promulga-se uma ordenação contra as pessoas brutais que, conculcando os sentimentos do pudor mais rudimentar entre povos civilizados, não se pejavam de contrair matrimônios com consanguíneos do 3.º e 2.º grau (entre irmãos e irmãs:










Lutero declara lícitas semelhantes uniões). Na lei sobre o matrimônio publicada em 1586, na mesma cidade, queixava-se o legislador "que a dissolução se tornava tão comum que apenas se considerava como pecado".69


No princípio de Ansprach, uma memória dirigida em 1530 ao margrave JORGE pede-lhe: "a fundação nos seus estados de uma tribunal matrimonial para dar despacho ao grande número de petições de separação e processos de adultério, para os quais já não eram

66. SYLVESTER CZECANOVIUS, De corruptis moribus utriusque partis, potitificorum videlicet et evangeliarum, s. 1. et a. F. 3 ss. Sobre a decadência moral da juventude de ambos os sexos enxameiam os testemunhos autorizados. WALDNER: "em matéria de libertinagem mais sabe hoje um menino ou uma menina de dez anos que outrora um velho de sessenta". Beriche etlichen Stucke den jüngsten Tag betreffend, Regensburg, 1565, fol. E. iij. NICOLAU HEMMING, o mais conceituado entre os teólogos denamarqueses, em 1562: "Outrora, a modéstia era o tesouro mais precioso das virgens; hoje, ostentam nas vestes e nos ademanes a falta completa de pudor". Ap. DOELLINGER, Die reformation, II, 674. A. MUSKULS em 1561: "Todos dizemos a altas vozes e deploramos que a juventude, desde que o mundo é mundo, nunca foi mais escandalosa e pervertida como agora e certamente não poderá vir a ser pior". Von des Teufels Tyrannei, no Theatrum diabolorum, 160. o próprio LUTERO: "É queixa grave e infelizmente justificada que agora a juventude seja tão desenvolta e desenfreada que nem já se deixe guiar". Erl. XLIV, 67. De quem a culpa? "Isto acontece porque as mães em casa lhes dão semelhantes exemplos". Erl. VI, 401. O pudor se vai perdendo no mundo feminino, "porque as filhas aprendem das mães e as donzelas das mulheres". Assim é, e os reformados dos reformadores.

67. OSIANDER, v. d. Verbotenen Heirathen, A. 2.

68. Cfr. Nürnberg Rathsbücher, 1524, Fasc. III, fol. 6; 1525, Fasc. XI, F. 9, 11, 16; 1627, Fasc. XIV, f. 2, 5.

69. SATTLER, Würtemberg, Gesch, III, beil, p. 140; V, 102.




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bastantes os juízes ordinários". Dois anos depois ANDRÉ ALTAMER suplicava de novo ao príncipe "quisesse levar em séria consideração a frequência, de dia para dia, mais notável, dos adultérios, a fim de que se possam determinar os meios de repressão de tão grande mal e ao mesmo tempo pôr obstáculos ao divórcio e ao concubinato que, a se descurarem, acabarão por invadir toda a sociedade".70


Na Saxônia, na Prússia, no Brunswick e no Hannover idênticas providências públicas contra a corrupção introduzida pela Reforma.


Fora da Alemanha o "puro" evangelho produziu os mesmos efeitos desastrosos.


Na Dinamarca, FREDERICO II, em 1576, toma sérias medidas contra as transgressões do 6.º andamento. "Assim o fazemos, rezava o decreto, em consideração das inumeráveis queixas que nos chegaram da medonha libertinagem que reina presentemente em nossos estados entre jovens e senhoras casadas....".


Na Suécia, uma ordenação de 1534 chama a atenção dos magistrados contra o mesmo vício, "visto como os habitantes das fronteiras que fazem frequentes viagens entre a Suécia e a Dinamarca não costumam ligar grande importância aos vínculos contraídos, tomam e deixam sucessivamente várias mulheres como quem muda de roupa branca ou de cavalos".


Na Noruega, numa súplica dirigida a FREDERICO IV em 1714, os "bispos" confessam que: "com exceção de poucos filhos de Deus, entre nós e os pagãos, nossos ascendentes, só há uma diferença: é que nós temos o nome de cristãos".71


Na Inglaterra, o próprio HERINQUE VIII declara ao parlamento que as consequências imediatas da Reforma foram "a caridade esmorecida, a lei de Deus desprezada, a avareza, a opressão, o homicídio, a venalidade da justiça, a corrupção do clero, o adultério, a libertinagem, a inveja nos grandes, a insolência e a revolta do povo".72


Companheiras inseparáveis da impureza são a embriaguês e a crápula; um não cresce sem que se desenvolvam as outras. "Os nossos bons velhos, diz o reformador DIOGO ANDRÉ, não admitiam os

70. Religionsakta, t. XI. Ver a miscelânea em apêndice.

71. Cit. por DOELLINGER, Kirche und Kerchen, München 1861, p. 362.
72. Cit. AUG. NICOLAS, Du protestantisme et de toutes les hérésies dans leur rapport avec le socialisme, l. III, c. 4 (na trand. italiana, Milano, 1857, p. 238).




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bêbados em nenhuma função pública; as crianças perseguiam-nos nos campos com gritos e apupos como a seres abjetos e opróbrio da espécie humana. Ora, se estes eram os sentimanetos dos nossos pais, num tempo em que o mundo vivia ainda nas trevas da idolatria papística, como nos poderemos justificar diante de Deus, nós que retouçamos na crápula entre os esplendores da luz evangélica? Perguntará talvez alguém como explicar que poucos anos tenham bastado a soltar as rédeas a vício tão execrando e que os nossos maiores tinham tanto horror. Ao que responderei que só por malefício do demônio se poderá explicar tão grande mal".73 Com ANDRÉ concorda o próprio LUTERO. "Quando eu era jovem, a embriaguez era uma grande ignomínia na nobreza... mas presentemente ela é mais frequente entre os nobres que entre os camponeses. Seu horror e vergonha contaminou também a juventude que aprende dos velhos... Por isso, a Alemanha é um país pobre, castigado e ferido pelo diabo do corpo e de todo submergido neste vício".74


Nos charcos da dissolução não ha seiva para o espírito de sacrifício e sem sacrifício definha e morre a mais bela das virtudes, a caridade cristã. Em seu lugar crescem e desenvolvem-se todos os vícios que gravitam em torno do egoísmo; avareza, usura, rapacidade, ambição, opressão de fracos e pobres. É o triste espetáculo que ainda nos oferece a Reforma. "De todos os lados se clama que os homem são hoje piores que antes da propagação do evangelho. Com efeito não se via outrora esse exército de sórdidos avarentos e onzeneiros que são a vergonha do nosso tempo... Os que outrora eram acusados de usurários eram santos em confronto destes ignóbeis judeus que, se bem se contem entre as pessoas honestas, engordam hoje com a substância dos pobres... De que poderá isto provir? O mundo acusa a boa semente, a santa palavra e é natural. Os papistas, nossos adversários, não são tão cegos que não vejam o escândalo, a avareza, o egoísmo, a cobiça, a usura, o orgulho, o luxo, a intemperança, a blasfêmia, a libertinagem, a mentira, etc., que se acobertam com o Evangelho. Dizem que todas estas abominações são seus frutos. Se a doutrina fosse boa, argumentam eles, os costumes seriam como ela. Não há dúvida que tudo isso causa grande prejuízo ao nosso evangelho".75 Excelente e precioso evangelho!

75. VEIT DIETRICH, Kinderpostille, Nürnberg, 1546, f. 34, 62, 76.

76.FRANK'S Chronik, I, F. 262, a, b. Ed. 1565.

73. JACOBUS ANDREAS, Erinnerung nach dem Lauf der Planeten gestellt, Tübingen. 1568, p. 440.

74. Erl., VIII, 293 ss. Leia-se todo este lugar Por esse tempo chegou a formar-se na Alemanha uma ordem de beberrões, provavelmente em substituição das antigas ordens monásticas. Primeira condição para ser nela admitido era a capacidade de beber bem. O resto seguia-se naturalmente...


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"Lançai um olhar sobre as transações cotidianas assim ente pastores como entre gente do mundo. Que vedes senão egoísmo avareza, rapacidade? Hoje reina o dinheiro. Combatem-se, dilaceram-se, arruínam-se mutuamente os homens só por havê-lo... Refinaram com tanta sutileza os meios de ganhar e gozar que se chegou a perder o sentimento da vergonha e do opróbrio... não há mais consciência, não há mais remorso desde que os homens se persuadiram que as obras não valem e que só a fé basta para a salvação".76


Infelizmente é-me necessário ter mão nas citações, que s poderiam ainda multiplicar sem outra dificuldade que a da escolha.77 Não posso, porém, deixar a atenção dos leitores para as modificações introduzidas pela Reforma nas relações de caridade entre ricos e pobres.


A introdução do protestantismo vibrou um golpe de morte contra o espírito de fraternidade cristã. Desapareceram o amor e o respeito ao pobre. Aboliram-se, aos poucos, os santos costumes que tanto contribuíram para estreitar os laços de simpatia entre os que a Providência desigualou na fortuna. É impossível não ver nesta ruptura com as tradições da genuína caridade cristã a primeira origem das rivalidade e ódios de classse que, aumentando com a revolução francesa, vieram em nossos dias a desencadear-se como verdadeiro cataclismo social, que ameaça a estabilidade da civilização moderna.


Fiéis ao nosso programa, demos a palavra a testemunhas contemporâneas. "No passado havia cristãos que amavam os pobres ao extremo de chamá-los seus senhores, seus filhos; lavavam-lhes os pés; davam-lhe de comer, serviam-nos à mesa como nosso Senhor Jesus Cristo. Hoje, se lhes proíbe a entrada nas cidades; expulsam-nos e fecham-lhe a porta no rosto como se foram réprobos e inimigos públicos... Que purificação da Igreja! Que Reforma! Que elementos de união e de concórdia!"78 Falando do pauperismo na Inglaterra, tivemos ensejo de notar como entre os protestantes se perpetuou semelhante maneira de tratar a pobreza desvalida.


77. Com o mesmo número de referências autênticas e contemporâneas poderíamos reconstruir uma e muitas vezes o quadro bosquejado acima. O leitor poderá encontrar estas citações coligidas nas obras que citaremos logo em nota bibliográfica.

78. WIZEL, Relectio luterismi, II, f. 91-246.


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"Era uso antigo na Saxônia, diz-nos outro reformador, quando se convidava estranho, de trazer uma grande bandeja, chamado bandeja de Deus, na qual de todos os pratos se punha uma porção para os pobres. Este caridoso uso infelizmente já vai muito em decadência nas nossas famílias. Era também costume nos domingos e dias de festa oferecer jantar a algum pobre pensionário do hospital ou a outro indigente. Hoje só em poucas famílias se conserva esta boa usança".79


Façamos ponto aqui e concluamos. Evidentemente, a Reforma traz no seu nome o mais pungente dos epigramas. A história no-la mostra como um grande aborto.


Em baixo deste quadro de cores tão carregadas escrevei as inocentes palavras do Sr. CARLOS PEREIRA: "A Reforma pôs um dique a esses desregramentos... o puritanismo protestante salvou o mundo da completa dissolução dos costumes".80 


79. CHEMNITZ, Postille, p. 517. Sermão para a XVII.º Dom. depois da SS. Trindade.

80. Bibliografia. BALMES, El protestantismo comparado con el catolicismo, c. 23-32; BAUDRILLART, L'Eglise catholique, la Renaissance et le Protestantisme(10), Paris, 1908; H. DENIFLE, Luther und Luthertum in der ersten Entwicklung, quellenmaisseg dargestilit, Mat. III; Mainz, 1904, t. 1 passim; DOELLINGER, Die Refomatiobn, ihre innere Entwichlung una ihre Wirhungem im Umfange des lutherischen bekenntnissen, Regensburg, 1846-1848, t. II, pp. 427-452; t. III; GRISAR, Luther, Freiburg i. B., 1911, c. 24, pp. 538-63; JANSSEN, Geschichte des deutschen Volkes, t. VIII (12), Freiburg i. B., 1894, pp. 359-493; AUGUSTE NICOLAS, Du protestantisme et de toutes les hérésies dans leur rapport avec le socialisme, 1. II, cc. 4-5; 1, III, c. 45; HENRY O'CONNOR. The only reliable evidence concerning Martin Luther, London, Burns & Oates, 1884, pp. 50-57.


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